Au revoir Lacordaire - por Edival Lourenço

 

Lacordaire Vieira: a primeira pessoa com quem estabeleci amizade aqui em Goiânia. Adolescente bisonho, tomado de esperanças vagas de me tornar escritor, cheguei à Capital em janeiro de 1971, pelas mãos caridosas de meus tios-avós Abadia e Juvêncio.  Fui estudar no Pedro Gomes, e ser faxineiro no Ginásio Cultural de Goiânia, onde Lacordaire lecionava Português. Eu trouxe um calhamaço de escritos: poemas, contos e crônicas. E uma ansiedade sem fim para mostrar para alguém que pudesse me dar uma opinião embasada. 
 

Lacordaire foi minha vítima. Hoje sei o quanto ele foi condescendente comigo. Meus escritos tinham qualidades abaixo do sofrível. Mas ele, com seu jeito zen (ele era zen desde aquela época) foi apontando as falhas, tomando o cuidado para realçar algum aspecto de positivo para que eu não me desanimasse. Talvez ele tenha percebido que uma das poucas coisas que eu tinha na vida era aquela compulsão pela literatura. Se ele me tirasse aquilo, não me sobraria nada. Quando ele ia ministrar aulas de literatura, interpretação de textos etc. me chamava para assistir. Ainda falava para os alunos, para que não me rejeitassem (um faxineiro assistindo aula com eles, onde já se viu?) que eu era um grande poeta e tal.
 

Algum tempo depois, me convidou para almoçar em sua casa. Me apresentou a família (mãe e irmãos; o pai já era morto). Me mostrou uns poemas dele, que me deixaram extasiados.  E principalmente me apresentou textos que poderiam me orientar para uma escrita mais consistente.  Depois de ler alguns trechos, me emprestou A metamorfose de Kafka, um livro de poema de Fernando Pessoa e outro de João Cabral de Melo Neto. E muitas vezes, naquele ano, se disporia a conversar comigo sobre as impressões de leitura, não perdendo a oportunidade de me orientar. 
 

Deixei a faxina, ele deixou o colégio. A vida seguiu seu itinerário, pelas mal traçadas linhas do destino. No entanto, a gente nunca perdeu o contato.  Em 1994, quando meu romance A Centopeia de Neon foi adotado no vestibular, ele foi um entusiasta na interpretação de meu livro para os vestibulandos. Me convidou diversas vezes para falar a seus alunos. Naquela ocasião me convidou também para prefaciar um livro seu. Certamente a maior das honrarias que eu pudesse receber.  Lacordaire sempre foi leve, simples, modesto, frugal, esperançoso sem ser iludido e externava o maior prazer do mundo em ser professor. Um professor como raramente se viu. Além de um escritor de estilo requintado.
 

Agora recente, tive a alegria de relatar seu livro de contos, A Dança do Condor, para a Lei de Cultura do município. Fiquei encantado com a beleza do livro, que foi aprovado. Segundo o professor José Fernandes, esta é a obra mais inventiva que surgiu na Literatura Brasileira nos últimos anos.  Nesta manhã de 11 de outubro, recebi uma ligação nervosa da professora Maria de Fátima Gonçalves me informando que o professor Lacordaire acabara de ser emboscado por um infarto fulminante, nas dependências da PUC. Logo ele que era comedido, magro e caminhava todo dia.  Foi então que me dei conta que estava perdendo não só um amigo incondicional. Mas uma referência de dignidade que tive nesses últimos 40 anos.   

 

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Um jeito simples de ser grande - por Zuleica Roberto

Fico imaginando o que os amigos de longa data, os alunos, os colegas de trabalho, e muito principalmente a família que o tinha sempre por perto e o amava, sofreram com sua partida tão repentina. Esses que agora têm que aprender a suprir a sua ausência  com as lembranças dos tempos vividos a seu lado.  Na nossa curta, mas eficiente Oficina de Contos, de apenas algumas horas distribuída ao longo de cinco dias; pudemos sentir o gosto de como teria sido bom aprender mais com ele.
  

Na sua humildade que o dignificava, disse-nos que fora ministrar, porém, que mais aprendera. Mas com certeza ele sabia que o pouco tempo que passou conosco, deixou sua marca de mestre. O que conheci desse ser humano especial? Talvez nada, talvez um pouco. A sua capacidade de ensinar com seu jeito tímido, de fala tranquila, de olhar observador; soube nos cativar tanto, que queríamos mais. No final da oficina, ele presenteou-me com o Conto Sociológico Urbano, de sua autoria; com a seguinte dedicatória.  À Zuleica, pela participação marcante em nossa oficina. Com admiração, apreço e cordial abraço do Lacordaire Vieira.   22/02/11 Senti-me orgulhosa, não esperava isso; muito provavelmente,era o seu jeito de incentivar alguém. Valeu muito tê-lo conhecido.  Saudades eternas.

 

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Montanha - por Chico Perna

A palavra pesada
persegue a pedra,
revela o austero pulsar do silêncio
e, com ele, inaugura um olhar de montanha.
Do alto, a alma encanta-se
e o olhar precipita-se em direção ao luzir da cidade.
Do baixo, o corpo, enfermo, claudica
e os braços perdem-se na impotência primordial
de uma escalada.
A montanha é sentida
e nela diviso o inferno e o paraíso
da Babel recriada.
Estando no centro,
a minha alma assesta a caverna
na recomposição do paraíso Dantesco.
Dessa forma,
a montanha enternece o poeta
e a palavra mais leve
revela a montanha/palavra
Refletida no olhar.

(Este poema  foi escrito quando eu era colega do Professor Lacordaire na PUC Goiás, e o mesmo surgiu de um desafio que ele,o Lacordaire, nos fez , na sala dos professores, para que compuséssemos uma texto literário, qualquer modalidade, sobre o tema "MONTANHA", e eu compus este poema "A Montanha", que faz parte do meu primeiro livro "Refeição" lançado em 18 de outubro de 2011 (há 10 anos) e que o professor Lacordaire gostou muito).

 

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Ao escritor Lacordaire, com carinho - por Johnatan Willow Dias de Andrade

Lembro-me com certa saudade, da oficina de contos que Lacordaire Vieira ministrou, neste ano, na União Brasileira de Escritores – Seção Goiás. Lembro que, quando eu fiz a inscrição na oficina, eu fui instigado a conhecer mais daquele que seria meu mentor. Eu fui ao SESC, peguei o livro “O Corpo”, e li-o todo. Até então, eu só conhecia o Prof. Lacordaire, pela boca de outras pessoas. Ele era um escritor contista famoso em Goiânia e, a chance de ser ensinado, durante uma semana, por este respeitado professor e contista, era um privilégio. 
 

Lembro-me de querer comprar um de seus livros, para que ele pudesse autografar, mas pelas vicissitudes da vida, eu me encontrava meio “duro”, sem dinheiro. Finalmente iniciara a tão esperada oficina: uma semana de aprendizado, com alguém que, com propriedade já escrevia há bastante tempo. Ele tinha a sensibilidade necessária ao contista, aliada à técnica, que é exigido de um Mestre em Letras e Linguística pela UFG. É uma honra para um escritor iniciante e jovem, com eu (que também cursa Letras, na UFG) ter como mentor, um escritor experiente como o Prof. Lacordaire. Dentro do Auditório Yêda Schmaltz, uma quantidade considerável de aprendizes escritores e escritores já consagrados na nossa região, aguardavam o início da oficina. 
 

Havia gente de todas as idades, sentadas por todo o auditório (que é pequeno e aconchegante) aguardando e apreciando a música clássica, que foi colocada ali para deleito dos alunos. Eu estava ansioso para conhecer o Prof. Lacordaire e não sabia que ela já se encontrava no auditório, conversando com alguns amigos-alunos. Foi uma grande surpresa, para mim, quando anunciaram o escritor e, ao invés de entrar pela porta do auditório, ele simplesmente se levantou do meio do público. Eu fiquei admirado com aquela figura magra, mais baixa do que eu, com barba branca e sorriso largo. De uma forma curiosa, ele me lembrava um parente próximo; talvez um dos meus avôs. Gostei do escritor, no primeiro momento que o vi. E não somente eu: todos na sala pareciam alegres e entusiasmados com o professor. 
 

A oficina, que começava sempre à tarde, tinha aproximadamente duas horas de duração diária e estava prevista para ser ministrada em uma semana. Os alunos, de diversas idades e estilos de escrita, compartilhavam suas experiências num clima de harmonia e descontração. Os textos que o professor entregava, para ler em casa ou durante o curso, eram deveras interessantes e me ajudou muito durante o curso de Letras, que eu faço de manhã. Todos participavam, e o professor adorava ouvir o que todos tinham a dizer. Incansavelmente ele dizia que estava aprendendo mais que ensinando, porém eu não me lembro de ter tido aulas de Teoria Literária que fossem tão agradáveis em toda a minha vida acadêmica! Eu estava aprendendo com escritores e sabia, cada vez mais, que queria fazer parte deste mundo, deste Porto do Escritor. Aquelas duas horas diárias de aula pareciam passar voando, de tão agradáveis. E após, fora do auditório, havia um petit coquetel, do qual os alunos-escritores podiam compartilhar suas experiências, dúvidas, telefones, etc. 
 

Ao fim daquela semana, todos nós pedimos para que a oficina se prolongasse ainda mais uma semana, mas infelizmente, não foi possível. Fizemos alguns contos para serem publicados no site da UBE, e cada um recebeu o certificado das mãos do próprio Lacordaire. Lembro-me que todos olhavam para mim, Johnatan Willow, e me comparavam em altura e tamanho com o professor. Desde então, eu tenho posto em prática, aquilo que o meu mentor me ensinou. Eu sempre gostei de contos e sinto que, meus textos melhoraram significativamente, após suas poucas, mas muito agradáveis e interessantes aulas. Quando me contaram de sua morte, eu fiquei muito sentido e taciturno, mas procurei me lembrar daquele senhor simpático, jovial e muito atencioso que me ensinara valiosas lições. Lembro-me de Lacordaire Vieira da Silva.

 

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A corda da vida - por Leonardo Teixeira

 

Saramago, João Cabral, Suassuna, Machado, Jobs e muita gente já asseverou sobre os benefícios da morte, pela ordem do mundo. O velho dando oportunidade, na hora e na vez dos novos. Já nascemos com a ampulheta virada. Os dias da vida se esvaindo com a areia do tempo, até que o último grão de vida deixe a secura da morte tomar conta do vazio. Como se o tempo já nascesse morto, a cada segundo debulhado que passa.
 

Uma lacuna se corrompe em cada coração, na certeza de sermos de fato meros mortais. Escrevemos nossa história no presente sem saber quantas páginas em branco do futuro nos restam. Muitos ainda vivem presos nas histórias antigas, como se fosse possível apagar o que já escrevemos errado. A vida não admite reparo, salvo as mudanças de conduta, o perdão e o arrependimento.
 

Talvez até escrevemos para deixar algo registrado, além do vazio de uma vida sem lembranças. Uma reticência imprevista de uma existência sem importância aos outros humanos. Talvez a escrita tente amainar o conflito de nossa finitude, para que nosso ponto final não seja tão cruel assim. Quem sabe esse exercício não seja mera vaidade, um ego que não faz a menor diferença diante de trilhões ou infinitas páginas já escritas por outros de nós. Semana passada, por ironia, a música do meu telefone era “vida passageira” do Ira. “Quando seus amigos te surpreendem/ Deixando a vida de repente / E não se quer acreditar... / Mas essa vida é passageira / Chorar eu sei que é besteira / Mas meu amigo.../ Não dá prá segurar”. E veio a notícia do falecimento do professor e escritor Lacordaire Vieira, “vitimado por um enfarte, enquanto ministrava aula na PUC-GO”.
 

Conhecia os textos do escritor Lacordaire e recentemente nos tornamos amigos numa oficina de contos da União Brasileira de Escritores - GO. No ano passado, perdi Fausto Valle, outro amigo da literatura, cuja ausência não foi digerida. “Essa vida é passageira!” Nesse ano a UBE viu muitos associados com o mesmo fim. Por mais que as discussões sobre a alma e o espírito sejam divergentes, um fato não pode ser contestado (nesse contexto). A morte acaba com a existência! A lâmina mortal dilacera fiapos da nossa corda da vida. Quando ela se arrebenta, alguém foi embora.
 

Li e recomendo os livros de contos do Lacordaire “Detalhes em preto e branco”,  “A voz dos vivos”, “O corpo”, e “A dança do condor”. Mas não poderei desfrutar de sua voz baixa e sincera dizendo verdades sobre a vida e a literatura; de seu jeito simples e sábio de comentar com propriedade as coisas da existência, por quem tinha conteúdo e vivência de mestre na arte de ensinar pessoas. Desde a última semana não tive coragem de comparecer em lugar algum. Guimarães Rosa disse que os homens não morrem, ficam encantados. Lacordaire está encantado, vivendo numa prateleira da minha estante, em várias estantes do país e em muitos corações que o conheceram pessoalmente ou pelas letras que escreveu. Vale a pena conhecê-lo, pois a sua corda pode arrebentar a qualquer momento (torço para que demore bastante)!

 

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Minha homenagem a Lacordaire Vieira - por Wania Majadas

Em 1996, Lacordaire Vieira  recebe um prêmio importante de literatura: Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos. O livro de contos premiado A voz dos vivos, contos. Em 1997, ele me  pediu para escrever a orelha do livro, o que me deixou feliz e honrada, porque sempre fui sua amiga e admiradora. Admiradora não só pelo escritor, mas pelo homem sábio, leal e amigo que sempre foi. Foram 33 anos de amizade. No dia 09 de dezembro de 1997, ele autografou: “À Wania, em especial, que confiou no meu trabalho, meus agradecimentos.”A singeleza desse autógrafo é retrato da simplicidade de Lacordaire. E como ele ficou bem satisfeito com o meu texto, transcrevo-o em sua homenagem.

A viva voz de um poeta da prosa

É pelas suas qualidades como construtor de histórias e pelo dom que tem de colocar em livros, personagens que são reais, que são gente de fato, que Lacordaire Vieira vem despertando admiração por parte do público leitor e da crítica especializada. A mim me espanta esse poder que Lacordaire vem revelando de construir uma história inteira à vontade, como quem respira, capaz de num relance atingir a verdade da vida. Suas histórias se impõem à nossa sensibilidade como algo vivo. Para se condoer da voz dos vivos, nada como uma compaixão viva que salta sobre nós e nos agarra.
 

Não é fácil conciliar a poesia, o húmus dramático, o senso de medida e o espírito de síntese. É uma literatura que une o poder da observação ao conhecimento do homem e ao perfeito domínio de linguagem; que é pungente, sendo discreta; que tem uma força extraordinária na sua contenção. Está aí o A-Pé-Zinhado que não me deixa mentir, onde fatos humanos dominam soberanamente, incisivos como os da vida real, mas que não surgem como representação mecânica da vida real. Lacordaire Vieira surpreende-me justamente por esse não sei que poder de valorizar pela ideia, e ainda pelos seus deliciosos recursos de expressão tudo o que é mais substancial de suas narrativas. Daí o humor, a graça, o movimento com que sabe variar cenas da vida comum. Lendo suas narrativas, o leitor verá e ouvirá coisas que o farão pensar em sua condição humana. Que o levarão a refletir por que um jovem se esconde do pai que o procura com tanta humildade, parado ali, à porta, como Retrato em moldura? Por que Bonfim não aceita a ausência de uma das pernas, sentindo dores, um enfincamento inexplicável, as dores da ausência, A dor do não?
 

E a terminar a leitura, o leitor estará sentindo um misto de respeito e admiração por si mesmo. Pelo ser humano limitado, perplexo, mas sobrevivente. Trata-se de um livro bem construído, como concepção, fatura e interpretação de vida. A lógica lingüística em Lacordaire é compreendida como crítica concernente à sua função expressiva, gramatical ou linguística, isto é, segundo a sua capacidade de expressar tanto pensamento. Percebe-se muito mais que a relação entre a arte literária e o objeto da linguagem. É isto e muito mais, pois o escritor de A voz dos vivos sabe que a criação literária é veículo através do qual se realiza a vida humana propriamente dita. A ausência de formas verbais em Desquite confirma esta veiculação que o criador busca entre criação artística e vidas humanas. Um homem que acaba de ficar sozinho, sem os filhos e a esposa, devido a uma separação, parece que inesperada, sente-se perdido, olhando para aquelas pessoas queridas da convivência diária, através dos objetos que elas tocaram – naquele momento, sente-se amputado em suas afeições – e a linguagem o acompanhará nesta desdita súbita, amputando o verbo, construindo apenas frases nominais. A linguagem, em processo mimético, segue as trilhas compassivas do autor.  Tanto neste livro como no anterior, o precioso Detalhes em preto e branco, Lacordaire Vieira, com fora e calor, com agilidade e tensão emocional, e com indisfarçável poesia, retrata uma comédia humana que nos toca, porque seus contos excedem como expressão literária e ainda como verdade social e individual.

 

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A Lição do professor Lacordaire – por Maria Aparecida de Castro Barbo

“O todo não existe sem a parte e a parte não existe sem o todo” repetia o Prof. Lacordaire em suas aulas. Chegava cedo, sempre antes dos alunos, e quando entrávamos na sala, lá estava ele, giz em punho, completando sua tabela fonética, meticulosamente alinhada no quadro de ardósia. Só dava bom dia, bom dia, bom dia, isso mesmo – três vezes, após a matéria estar exposta. Começava então a aula: rica em conteúdo, pontilhada aqui e acolá de experiências particulares que enriqueciam sua biografia e nos deixava um exemplo de vida. Viveu na roça até a adolescência. Veio então para a cidade, quando começou os estudos e por eles se apaixonou ao ponto de se tornar professor. O mestrado em lingüística foi uma opção, mas a literatura era sua paixão. Linguagem enxuta, objetiva – influência do significado, mais do que o significante naquele rio – a frase, que com seus afluentes – o contexto, deságuam no texto: ser supremo e abrangente. Professor, obrigada pela singeleza com que nos introduziu neste mundo lógico e estruturado, mas ao mesmo tempo suave e profundo. Por certo toda a comunidade intelectual vai se ressentir dessa parte que se foi. Sua aluna Maria Aparecida de Castro Barbo 

 

 

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O Sabiá da matinha - por Manoel Vicente Filho

 

- Pai, vou escrever um livro.
 

-  Com essa idade?
 

- É aí que está. Quando for entrevistado, vão saber que um menino de 12 anos de idade escreveu um livro.
 

-  Você quase me fez cortar nesta lâmina de barbear.
 

- Não fiz nada. A minha fala não dá corte em ninguém, às vezes, dão corte no que eu falo, mas falam que há palavras que ferem.
 

- Há sim. O talho da palavra vai fundo alma adentro. Feridas com chagas beiçudas.
 

- Eta pai sabido!
 

- Essa conversa sua sobre escrever livro até me faz crer que você tem lá algum cabedal em sua pródiga mente que mereça ir indo para os outros.
 

- Tenho. A cabeça aqui está cheia. Dá de não aguentar mais.
 

- Dê uma esvaziada nela.Parece-me que está alvorecendo uma vaidade, querendo aparecer como escritor, masdiga-me o que é que há nesse seu livro aí tão apojado?
 

-  É a estória de um sabiá.
 

- Sei. Sabiá é um pássaro que canta e já foi cantado por poetas.
 

- É. É, mas o que vou conceber é um sabiá diferente.
 

- Sabiá do outro mundo?
 

- É e não é. É um sabiá diferente como que um mensageiro encantado.
 

- Ninguém vai chegar ao fim da leitura desse seu livro, pois não encaixa naverossimilhança. 
 

- O senhor quer dizer o que mesmo, pai?
 

- É que a criação literária tem que se assemelhar com o real, senão é conversa de doido, por exemplo, você escrever sobre um mamífero voando.
 

- Tem que dar um lugarzinho para a exceção aí, pai! O morcego é um mamífero e voa. Usa os patágios.
 

- É. Você está quase me convencendo que vai dar conta de escrever um pouco sobre o sabiá seu.
 

- Vou sim. Está aqui na cabeça.
 

- Diga o roteiro.
 

-  Será que não atrapalha a nós, não?
 

- Eu já estou quase pronto e você me vai contando pelo caminho, pois estou preso ao que você anda falando. Quero ver até aonde chega.
 

-  Vou dar o roteiro encasuladoporenquanticamente.

- Meu Deus, que conto será esse?
 

- Já falei, pai!
 

-  Ah é! Sabiá diferente!...
 

- Sabe, pai, toda vez que eu passo ali na matinha, aquela ali da pista da caminhada do Parque Municipal Flamboyant, em companhia de minha mãe, ela segue e eu paro. Sinto-me diferente dentro aqui de mim, parece um pedacinho de felicidade. Parece queo sabiá não é acasalado com ninguém. Mora ali sozinho. Vejo-o quase toda vez, mas, por ser diferente, andou conversando comigo. Aí, pai, decidi relatar a nossa prosa.
 

-  Esse sabiá seu é diferente mesmo! Que sabiá canta, eu sabia. Agora, o seu..., como é o nome dele?
 

-  Agora, não. Eu queria deixar de lado o nome dele. Estou escolhendo um nome.
 

-  Certo, entendo, ainda deve continuar pagão, nada de batizá-lo. Mas, como lá ia dizendo, ou melhor, o que lhe queria perguntar era que o fulano, o sabiá seu, fala a nossa linguagem?
 

- Fala.
 

-  Diga só um pedacinho do papo dele.
 

- A aproximação minha com ele foi porque fiquei assim achando bom olhando para ele...
 

 - Suspenda. Vou contar, antes que me esqueça, como foi que nasceu o canto do sabiá. Tenho certeza de que você não sabe, mas eu sei, porque já li alhures, não é desta minha cabeça aqui não. Vai interessar a você que anda escutando a voz misteriosa de um sabiá seu.
 

- Han!
 

-  Era mudo o coitadinho. Tinha um ruído gutural meio arranhado. Era uma ave vista e não ouvida. Uma dentre as milhares, não cantava e não era cantada pelos poetas.
 

- Conte, depressa, pai, senão não dá tempo de eu contar o meu roteiro.
 

-  A moça estava na janela da sala e, no terreiro, estava o moço. Estava a cavaloa uma distância até boa da moça. Olharam-se fixamente com tanto visgo, amorevolúpia que parecia estarem ligados por um fio de alta tensão e o sabiá fez um voo, cruzou o campo imantado entre os dois namorados e a descarga de maravilha desatou-lhe a voz. Foi sentar-se num galho de laranjeira e de lá cantou pela primeira vez e ensinou a cantaros sabiás contemporâneos e a todosda sua descendência. Agora surgiu um sabiá seu que fala.
 

-  O meu sabiá começou assim a falar comigo:
 

-  Eu faço parte de você e agora estou sob a aparência de sabiá por ser o pássaro que você mais admira e, por desígnio divino, sou oque mais zela de você.
 

-  Continue, que sou todo-ouvidos. Estou na direção aqui e estou com atenção na fala do sabiá seu.
 

-  Ah! O sabiá falou mais, revelando-me um entender poético. Disse-me ele que a alma de Deus é poesia e, às vezes, deixa cair na gente uma fagulha capaz de fazer-nos ver o que os outros não conseguem. 
 

-  Esse sabiá seu, meu filho, só pode ser um anjo. Com uma mensagem assim! Aliás,os anjos cumprem ordens, por isso que são chamados de mensageiros.
 

-  Eu sei, pai, eu vi logo que era o meu anjo da guarda!
 

-  Olhe, depois deste engarrafamento, é o seu colégio. Você está sabendo?
 

-  Estou. Vou escrever o conto e o senhor vai mostrá-lo para o famigerado contista, o professor LACORDAIRE?
 

-  Acho difícil, porque está sempre assediado pelos alunos e, se levar para casa, vai ficar por lá e nunca vai lê-lo. É um revirado mexido o lugar, onde quase todos os professores geniais trabalham.Sendo assim, não irá fazer nenhum juízo de valor sobre o conto do poeta que aparou a fagulha caída da alma divina.
 

- O senhor não sabia que eu estou gravando a sua sabedoria?
 

- Menino, então grave aí! É de Patativa do Assaré, poeta cearense:

Gravador que estás gravando
dentro aqui deste ambiente,
tu gravas a minha voz,
meus versos e meu repente,
mas gravador, tu não gravas
a dor que o meu peito sente.

- Tá gravado.
 

- Até a dor que o peito sente?
 

-  Não. Só se ela gemer.
 

-  Por aí, você estávendo que não é fácil haver criação literária dentro das caleidoscópicas paredesda arte, com o esplandecer do belo no transporte excelente das mensagens.
 

-  Estou gravando.
 

- Você, por acaso, sabe que é só em cima do texto é que há a arte da literatura? Estou falando assim, porque, se não houver a leitura do texto não destila literatura nenhuma. Agora, você, pretenso escritor, com texto no contexto da Informática,na era da digitação, espantado comos assombrosos efeitos audiovisuais, com as imagens vivas e comos coloridos livros disponíveis no coração doIpad, ainda pensa em ser um estranho escritor no museu que o futuro desdenhará!?Antes de escrever um livro, precisa saber o quão é difícil publicar. Precisa de axiologia no que tange à escala de valores. A prioridade de um jovem igual a você, penso eu, é dar conta do recado nas obrigações de acordo com a idade, nunca preterindo os princípios cristãos, pois, sem estes, o mundo seu desaba. Agora, parece que vai desengarrafar o trânsito. Gostaria de falar ainda sobre as dificuldades que os escritores de outros tempos tinham. Vejamos. Pena de ganso, molhando, intermitentemente, no tinteiro. Pergaminho. Manuscrever tudo. Publicação do livro. Eram dificuldades quase intransponíveis, no entanto, havia publicações e com arte. São os valiosos livros de antigamente. Até hoje são valiosos, porque foram escritos com arte, repito, e esta é eterna, intemporal, imutável, universal,ficando para sempre. Victor Hugo era novo, tinha lá os seus dezoito anos de idade e já tinha escrito muitos livros, eu li um com mais de 400 páginas. Hoje, com a sombra de um dedo na tela, vira a página de um livro. Tempos virão em que o avanço tecnológico possibilitará a você carregar uma biblioteca num minúsculo aparelho eletrônico, ter o mundo numa menção de ir lá com a ponta do dedo.
 

- Pai, não entendi bem o que você falou agora, falando, falando sem parar, se é estímulo ou desestímulo? 
 

- É apenas uma chamada de atenção para um juízo de valor, pois, poderá você nessa idade sua ficar envolvido em dar corda à imaginação, ficar patinando, criando um livro que, ao depois, será submetido à apreciação do professor LACORDAIRE, resultando numa perda de tempo. Irá ele desaconselhar a publicação. Pode acontecer que a sua inspiração esteja com alarme falso. A primavera de sua vida é mais de desabrochar as flores e os frutos virão sobejamente, quando a estação própria vier. O professor LACORDAIRE ainda irá explicar para você que há muitos mundos e, em Teoria Literária, existem dois mundos, o do escritor e do leitor. A obra se completa com o leitor. Este, no seu mundo, sente a seu jeito e, muitas das vezes, o escritor não atina com o que acontecerá com o leitor.
 

- Parece que estou entendendo.
 

- Como assim?
 

- O caboclo que tem boa massa cinzenta cheia de conhecimentos e com muita sensibilidade entende mais.
 

- Aí, quase bom, cada leitor, é claro, tem o mundo seu.
 

- Parece que o meu de escritor vai ficar um mundo gorado.
 

- O professor LACORDAIRE dá lições para os seus alunos só em cima de textos. É igual professor de natação. Só ensina a nadar em cima e dentro da água. O texto predileto que o professor LACORDAIRE usa para explicar o mundo do escritor e do leitor, é o poema de Fernando Pessoa:

    

 

 

Autopsicografia

    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    que chega a fingir que é dor
    a dor que deveras sente.

    E os que leem o que escreve,
    na dor lida sentem bem,
    não as duas que eleteve,
    mas só a que eles não têm.

    E assim, nas calhas de roda,
    gira, a entreter a razão,
 
    esse comboio de corda
    que se chama o coração.

 

- E aí, filho, deu de gravar bem?
 

-  Ih! O gravador já parou há muito tempo!  A minha memória tentou gravar o restante da sua fala, aliás, fala comprida.Quase acabou com a corda da minha atenção.
 

- E a fala do sabiá seu? Por voltar ao sabiá, já está batizado? Qual é mesmo o nome dele?


- Ainda não consegui nome para o sabiá não, pai! Não dou conta. Vai ficar sem nome.

- Como você queria escrever um livro, se não dá conta nem de dar um apelido ao personagem principal? Tadim!...
 

- Deu-me uma dor de cabeça aqui de tanto comprimir o cérebro, mas não pariu nome nenhum.Talvez o batize de sabiá-angico!... 

- Por que você está falando em angico?
 

- Angico é anjo pequeno.
 

- Não é nome de árvore?
 

-  É, mas é assim chamada porque as folhinhas dela têm aparência de asinhas de anjo.
 

- Olhe lá, meu filho escritor! O portão do colégio já está fechado.