
Daqui a poucos dias, festejarei um jubileu de prata. Há alguns anos tenho me dado ao luxo de festejar coisas assim: aniversários marcantes. É prêmio divino da longevidade que, ainda incipiente, anuncia-se para mim. Morrer, só se for por acaso. Vamos ao texto:
Acabei de ler teus Poemas Selecionados e “diria de ti” (trecho de um dos poemas) que és o poeta do amor nas madrugadas. Deus te conserve, para mais poemas nos dares desse amor que anda tão raro e dessas madrugadas que andam tão desertas, porque essa é a hora em que os bandidos trabalham e os assaltantes cavam o seu dinheirinho. Por falar nisso, como consegues atravessar as “horas neutras da madrugada”, como dizia Rubem Braga, incólume? Tens, por acaso, acordo com os marginais ou ficas invisível?
Você revive, em seus poemas, o velho tema e não consegue ser chato nem demodê. Com isso consegue provar que sempre haverá uma forma nova de se dizer coisas antigas de maneira agradável, gostosa de se ler. Tem muito poeta por aí que tem medo de fazer isso, para não sofrer críticas de vanguardeiros de araque, cabotinos copiadores de – no meu modo de ver as coisas – vigaristas da literatura, que abrem caminho a cotoveladas e outras audaciosas manobras.
“Nosso bosque sem mais vida”deveria ser lido em todas as escolas, em aulas de fundo cívico, para fazer a meninada pensar e se formar na ideia de respeito ecológico.
Tenho certeza de que teus versos serão apreciados muito pelos novos leitores que conquistares. E vais conquistar muitos, especialmente leitoras. Um abraço do ... (e a data: 17/02/87).
Semanas antes, entreguei ao mestre Anatole Ramos um punhado de poemas – alguns inéditos, outros divulgados em livros e jornais. Pretendia publicá-los numa brochura que integraria coletânea de uma editora gaúcha. A ideia foi de um jovem poeta dos pampas, Antônio Ioris, cujo pai era, na ocasião, produtor de soja no Sudoeste Goiano. O título, viu-se acima, seria “Poemas Selecionados”. Anatole, no pedestal de sua ampla experiência, adivinhou que, além da impecável revisão, eu queria dele um prefácio – para mim, o modo de inserir o amigo na festa que sempre é um livro: ele seria o convidado especial.
Ao entregar-me a folha datilografada, ele riu:
- Usei dois tratamentos só para incomodar os chatos.
Esse livro não saiu. O poema “Nosso bosque sem mais vida”, destacado por ele, fora publicado no jornal O Estado de Goiás, onde marquei presença como repórter e articulista, tendo por patrão o saudoso Nelson Raphaldini e por editor o amigo querido, poeta inspirado e profissional competente Valdivino Braz.
Parênteses. Certamente, Anatole Ramos diria de Valdivino Braz o mesmo que falou de mim com relação a um comportamento honesto na produção literária; é que Valdivino e eu, entre uns raros outros, já naquela época éramos alvos das pedras da inveja, disparadas contra nós justamente pelos tais “vanguardeiros de araque” ou “vigaristas da literatura, que abrem caminho a cotoveladas e outras audaciosas manobras”.
Mês que vem, esse texto completa 25 anos. Vale dizer que, naquelas décadas de 1960, 70 e 80, raríssimos escribas goianos deixaram de contar com os conselhos e orientações do Mestre Anatole, um dos mais legítimos intelectuais que esta terra de Leodegária de Jesus e José J. Veiga conheceu. Os que não tiveram um prefácio escrito por ele foram agraciados com suas crônicas impecáveis.
Se Goiânia fosse uma cidade reconhecida e grata aos seus valores humanos, Anatole certamente seria patrono de uma rua, praça ou escola, especialmente no Bairro Feliz, logradouro que ele dividiu com a também inesquecível poeta Yeda Schmaltz – outra a quem a municipalidade deve uma honraria (aliás, os débitos são incontáveis, apesar da história ainda incipiente da cidade).
Somente agora publico este texto, festejando, com as minhas amigas filhas e netas do meu padrinho literário, a lembrança que não deixamos morrer.


