Em memória do poeta Fausto Valle
 
Ele se deu conta de que estava caminhando ao ar livre no Valle Fausto, sob um céu diurno brilhante. Podia ver as nuvens em movimento, tranquilamente e com precisão, como se houvesse grandes condutores celestiais coordenando o balé de nuvens figuradas por jocosos animaizinhos.
 

Era 12 de maio de 2010 e o dia estava especialmente lindo! O sol apareceu sorrindo, no alto das montanhas em talhe, fazendo o verde embaçado pela neblina retomar a força de sua cor, num imenso tapete com vários tons de verde. A brisa suave dizia que o dia seria ensolarado.
 

Ele caminhava lentamente pela relva ainda úmida. Chegando a tocar em gotículas que, vez ou outra, caíam dos galhos daquelas árvores bucólicas. Avistou ao longe, na margem perpendicular do lago, a velha casa edificada por seus ancestrais. Sentiu-se próximo dos tempos de menino. Aproximou-se mais um pouco, sentindo no ar o cheiro agradável de um bolo quentinho, ainda no forno, misturando-se ao perfume das flores do campo, o que transformava o ambiente num verdadeiro paraíso.
 

Percebeu a quietude do lugar, e sentiu que a paz entrara por todos os poros de seu corpo, fazendo-o quase levitar. Sorriu para as crianças que estavam quietas sentadas na varanda, com roupas limpas e os pés calçados. Não havia barulho de bola quicando no chão, nem cantos de roda. Convidou-as para brincar, mas foi ignorado.
 

Num repente, suas lembranças o transportara para o futuro, no universo urbano de Goiânia, aonde ele se viu entrando em casa ainda absorto em seu Valle Fausto. Havia em seu rosto uma alegria contagiante e ele queria que todos os presentes compartilhassem de sua felicidade. Observou com um entusiasmo infantil as flores naturais que adornavam a mesa de mogno no centro da sala, tocando-as com ternura e aspirando o seu perfume. Sua felicidade naquele dia era tamanha que não atinou que rostos pálidos e olhos vermelhos pairavam sobre as muitas expressões que perambulavam silenciosamente pela casa.
 

Viu sua mulher amparada por algumas amigas e por instantes atinou que o silêncio foi de modo tênue, quebrado por burburinhos em uníssono. Mas ele não decodificou o porquê, tambem não entendeu como as pessoas ali podiam ficar desanimadas num dia de radiante beleza. Pois ao abrir as janelas ele vislumbrava a luz do sol numa simetria de cores engastadas em padrões, como se minúsculas pedras preciosas tivessem sido costuradas num tecido de voile esvoaçante que se movia em ondas espalhando-se por todos os lados. Ele sentiu-se maior que a vida, como se pudesse flutuar sobre os demais. Não sentia dor, nem mesmo as de cabeça que eram constantes. Na verdade, nunca havia se sentido tão bem, tão preenchido e ao mesmo tempo, tão leve. Sentia-se inteiro. Sua cabeça estava límpida e ele respirava profundamente todos os odores da natureza de seu Valle de encantamentos, de seu Fausto Valle.
 

Olhou outra vez para Goiânia e achou-a muito linda, olhou para todos os seus e meneou a cabeça negativamente, como se lhes dissesse para aproveitar a beleza dos dias... em seguida, como se fosse mágica, estava de volta ao seu Valle... assim, deitou-se na grama e foi levado pelo entorpecimento, apalpou o solo como se quisesse agarrar em algo tangível diante daquela chuva de imagens e pela primeira vez, em anos, não sentiu coisa alguma a lhe perturbar, nenhum tipo de preocupação o possuíra e ele estava convicto de que havia escolhido o momento certo para descansar às margens do Fausto lago de seu Valle.
 

Assim ele partiu, levando consigo a aurora do dia doze de maio e deixando-nos sem a poesia fausta que existia em seu vale de inspiração.