“Deus é uma vastidão sem termo de

entendimento, de perdão e de beleza”

(Lúcio Cardoso)

 

 

 

Vivo fechado e dessas frestas donde ausculto

a casa onde vivem os assassinos e de um pulo

estão no meu cangote – se não fico no escuro;

até quando a lua: ah, a lua gorda e cheia, que emulo.

Prefiro tudo isso, da égua da madrugada o relincho

pela casa, a ágora, o Pavilhão onde mora o pecado.

Aguardo ansioso o moço loiro que violetas agita,

o glorioso homem que corre pela noite e às damas

da noite seduz, conhece no turvo desejos reprimidos.

Nas cortinas dessa casa – desse casarão assombrado

em sombras pasto e me abasto e me embebedo usurário

prestamista, abutre, mas nem sempre triste –

Ah! Quando a lua gorda e cheia da fortuna alheia

a minha janela vergasta – nem sempre em riste

meu sexo e o dos moços dos quartinhos escuros

um destino obscuro, mas de joias pleno –

que o mascate vendera de geração em geração

até meu corpo adornar e os vestidos de mamãe

com que recomponho o sido o nascido – como homem

tido, e vivido, o que houvera sido – violetas na janela

olvido, tristeza de um invertido, escondido neste casarão

assassinos, assassinada casa, a usura de medo entremeada;

sou eu, Timóteo, não o discípulo de Saulo, mas o tímido

do quarto escuro donde a chaga; onde a solitude reina e

o Nada que padre Justino enxergara –

"o outro lado do Absoluto

dos que poderiam crer” –

No quarto em que me matam, eu os mato.

Eu sou Timóteo o que reduz o Tempo a nada; que anula a

palavra

Eu sou o anjo Exterminador. À chaga me junto com medo,

e à serpente,

e ao deserto das almas entre os cômodos e pilastras da casa

como de muitas casas ao redor do planeta refregam os

timóteos

e os vergastam com um chicote e uma aldrava – a porta

sempre fechada.

Aqui vegeta o nada, planta que se enraíza e eu a deixo ir

feito trigo

eu nutro até colher a flor – não aquela do cheiro bom – das

violetas

colho a flor chamada tédio – obedeço apenas aos meus

instintos:

como, durmo, sonho, bebo e adormeço para começar a

comédia

novamente, presa do meu impulso desatinado – até o

desespero.

Eu sou Timóteo e confesso a vós, irmãos e irmãs que

pequei.

E só com a misericórdia de Deus posso me salvar, se

salvação houver.

 

 

 (*) Draft de poemas "Encômio a..." (Segundo de três

poemas sobre "A crônica da casa assassinada", romance,

1959. À Sergio de Souza e Cláudio Ribeiro.

 

 Fonte: betoqueiroz.wordpress.com/2017/06/11/um-poema-em-homenagem-a-lucio-cardoso/