Yêda Schumaltz

Foi na página de um dos jornais que eu preparava para forrar a calçada da casa que construímos em Pires do Rio para pintar as grades assentadas sobre seu muro que eu soube da morte da minha amiga Yêda Schmaltz. Ao desdobrar o jornal para esticá-lo sobre a calçada para protegê-la dos inevitáveis respingos de tinta, vi a foto da Yêda e o funesto título da matéria que me provocou susto e lágrimas: morreu a poeta Yêda Schmaltz. Com o jornal nas mãos, voltei ao interior da casa e mostrei a matéria à minha esposa Lena.

O meu isolamento intelectual em Pires do Rio, que não era de produção, colocava-me ilhado de contato com as pessoas e acontecimentos. Justamente num final de semana que eu deixara de ler o jornal era chegada a notícia do embarque da Yêda para as terras espirituais.

Conheci pessoalmente Yêda, no ano de 1979, no Hotel Umuarama, Goiânia, quando ela lançou seu livro A Alquimia dos Nós, dedicando-me seus versos com o autógrafo: ao querido companheiro de poesia Ubirajara Galli, estes poemas de amor e de humanidade. Com o afeto especial que une os poetas. Na publicação do meu primeiro livro, Poemas e Papos (1977), havia feito um poema em homenagem à Yêda; neste seu lançamento, ela aproveitou para agradecer meus versos a ela dedicados.

Tornamo-nos amigos próximos. Acompanhei o crescimento adolescente dos seus filhos, Cristino, Simone, a gestação e o nascimento de Melanie, além de outros rebentos travestidos de versos e prosas. A última vez que eu estive pessoalmente com a Yêda foi numa solenidade promovida pelo Instituto Goiano do Livro, no Museu Zoroastro Artiaga, então presidido por ela, quando vim ao evento representando o prefeito de Pires do Rio, Édio de Gregório, pelo seu excelente apoio à cultura.
 

A mais importante voz feminina da poesia goiana de todos os tempos, morta aos 62 anos, em São Paulo-SP, onde seu corpo foi cremado, no dia 10 de maio de 2003, tinha um desejo: queria as suas cinzas misturadas aos restos mortais do seu avô poeta Demóstenes Cristino, sepultado em Ipameri. Assim foi feito.
 

Um ano após o seu falecimento, encontrei a boa vontade da então presidente da Câmara Municipal de Ipameri, Patrícia Ribeiro Guimarães, à minha sugestão para homenagearmos a poeta com a realização do Concurso Nacional de Poesia Yêda Schmaltz. Para compor a comissão julgadora, convidei seus antigos amigos e companheiros do GEN – Grupo de Escritores.
 

Novos, surgidos na década de 60, em Goiânia, Aldair da Silveira Aires e Geraldo Coelho Vaz. Além do seu tio e poeta ipamerino Leonardo Cristino. O concurso foi um sucesso, com a participação de mais de 800 poetas de todo o País, vencendo, naturalmente, a categoria nacional, o poeta Delermando Vieira, de cujos versos Yêda admirava. A categoria local coube à poeta Elma Paranhos.

Além dos livros de prosa, contos, romances e ensaio, Yêda publicou em vida 16 livros de poemas, que lhe trouxeram as mais importantes premiações nacionais do gênero. Postumamente, seu filho Cristino tomou a feliz iniciativa em 2006 de publicar seu livro inédito de poemas, intitulado: Noiva da Água.

Se para a sorte da prosa goiana tivemos Hugo de Carvalho Ramos, igual porte é reservado à Yêda Schmaltz.


Ubirajara Galli é escritor, membro do Conselho de Cultura do
Município de Goiânia, do Conselho Editorial da Universidade
Católica de Goiás, da UBE-GO, da Academia Goiana de Letras
e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás