Não é verdade que eu procuro sarna para me coçar, são as sarnas que me procuram. Desta vez eu me deparei com uma sarna daquelas. Uma baita sarna. Coitada de mim! Minha nossa senhora, só apelando para a Neura.
 

- Neura, eu fiz aquilo que havia dito que faria. Eu sei que não devia ter feito, mas fiz. O pior Neura, foi que eu gostei muito de ter feito. Sei lá, eu não resisti... sabe como é? Carne fraca, fraquinha, fraquinha. Mas agora minha amiga Neura, fiquei obtusa. Bolada mesmo. Tem remédio?
 

- Neura? – Você está ai?
 

- Sim amiga, estou processando sobre aquilo que você disse que faria e ainda estou surpresa com sua ousadia...
 

Pobre Neura, ela que já tem uma cara repleta de buraquinhos, parecida com xixi de homem na areia, agora então com o cenho franzido por causa de minha declaração, deve ter ficado horrenda. Ainda bem que falei com ela por telefone, assim não precisei ver isso.
 

- E agora Neura, o que eu faço?
 

- Tome um banho demorado com água fria que passa. Se não passar, vá atrás do Zeu, porque se o Zeu não resolver, ninguém mais resolverá.
 

Então eu fui para casa e tomei um banho demorado, como a Neura me recomendara, da cabeça aos pés, esfregando-me com força e conjeturando que a água e o sabão levariam meu deslize esgoto afora: meu deslize deslizando pelas narinas do ralo... Nariz entupido, só se for, porque a coisa toda se voltou contra mim.
 

- Zeu, a Neura já deve ter lhe contado que eu fiz aquilo que disse que ia fazer... Daí ela me indicou um banho frio e demorado. Zeu, adiantou não. E agora, me diga o que eu faço?
 

- Experimenta ir ao cabeleireiro. Faça as unhas, mude a cor e o corte de cabelo e depois, compre uma roupa nova. Não há remédio melhor para a culpa do que a mudança de visual. Se isso não funcionar querida, procure o Zoutro, porque esse está acostumado a levar nos ombros as culpas do mundo.
 

- Zoutro, o Zeu já deve ter lhe falado que eu fiz aquilo que disse que ia fazer... Eu fui ao salão, fiz as unhas, alonguei os cabelos, tingi-os de vermelho, comprei um jeans, uma regatinha e um All Star xadrez. Prendi os cabelos num modelo rabo de cavalo e perambulei pelo bosque por horas, depois voltei para casa e quando olhei no espelho, notei que o meu deslize me possuiu e nem aquela ruiva descolada conseguira arrancá-lo de mim. E agora, o que eu faço? Como lidar com a culpa, Zoutro?
 

- Por que você pensou que eu saberia? Tinha mesmo que ser indicação do Zeu, pois este acredita que só o Zoutro comete erros. Mas quem vive fazendo besteiras é o Zeu...
 

- Zoutro, Zoutro... Tudo bem, desculpe. Vou ligar para Noia. Ela certamente saberá o que tenho que fazer.
 

- Cidoca, está sabendo né? Pois é, eu liguei para Noia e ela me aconselhou a mudar os móveis da casa de lugar. A princípio eu acreditei que adiantaria, pois quando não se pode trocar os personagens, é bacana pelo menos mudar o cenário. Assim eu fiz: mudei tudo de lugar. A casa parecia outra... A casa tornou-se outra, Cidoca, mas eu ainda sou aquela que cometeu um acinte. Eu preciso exorcizar a culpa...
 

- Exorciza, então!
 

- Como?
 

- Primeiro, confessa e depois paga a penitência. Simples assim.
 

- É mesmo. Por que eu não pensei nisso antes?
 

Desliguei o telefone e parti em busca da igreja mais próxima de casa. Estava ansiosa para livrar-me do terrível deslize.
 

- Padre, eu cometi um acinte. E o pior de tudo padre, foi que eu envolvi a Neura, a Noia, o Zeu, o Zoutro e até a Cidoca intencionalmente.
 

- Que tipo de pecado seria esse, minha filha? Defina acinte...
 

- Acinte padre, é quando uma cronista não tem nada que preste para escrever, mas escolhe um título que chame a atenção e fica até o fim de sua crônica enrolando o leitor... Padre, eu me declaro acintosa. Tem perdão?

 

(Texto publicado no Diário da Manhã - DM/Revista - Goiânia - Goiás em 24/05/2010)

 

Clara Dawn - Romancista
Editora da revista eletrônica da UBE-GO: www.ubebr.com.br
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