Tonny parou à porta da farmácia com a sogra para tomar injeção. Ao abrir a porta, depara com um revólver no rosto e o ladrão afobado: – Perdeu playboy. – Exigia carteira, celular, chaves e tudo. E mais, queria o carro desocupado com urgência. E não era pra olhar pra ele: –Essa velha tá me olhando. Vou estourar os miolos dela!
–Ela é cega, mano! Justificou Tonny.
–Desinfeta o carro. Rápido!
–Ela é paralítica, mano.
O ladrão deu um murro com soco inglês na cara de Tonny, que caiu feito um abacate. O ladrão entrou no carro e arrancou com a velha, que não estava entendendo nada. E a vida tinha lhe ensinado que, quando não se entende nada, calado fica. Ao reanimar do soco, Tonny retira da meia o segundo celular e liga para o número que o ladrão levara. E, por incrível que pareça, o ladrão atende.
–Se desligar eu te estouro. Tá ligado, mano?
–Sim. Tô ligado. Fala, playboy?
–Estou te vendo. Se bobear vai virar peneira. Faça tudo o que eu te disser.
–Tá blefando, playboy! 
–Experimenta, pra ver.
–Eu mato a velha!
–É um favor que você me faz!
–Meu genro não blefa, não.
–Você não é surda, velha?
–Sou cega, mas não sou boba!
O ladrão ouviu rumor de helicóptero. Viu no alto a viatura aérea da polícia, com policiais pendurados nas portas, fuzis apontados. O comando não estava em sua captura. Mas quem ia saber? E Tonny é bom de coincidências.
–Sim, diga. Onde é pra deixar a velha, playboy?
–Deixar a velha, sim. Mas não é só isso, não, mano. Só recebo ela agora com o carro são e salvo, os documentos, o revólver, o celular e 200 mil reais!
–Ficou maluco, playboy?
–Presta atenção, mano? Quer virar peneira? – O helicóptero rodando por cima.
–Fala, logo, playboy!
–Ponha os 200 mil no porta–luvas, junto com a arma e os documentos. 
–Não tenho 200 mil. 
– Como não tem? Ontem você detonou o caixa do banco. Se vira. Vai até a praça T–25 e deixa tudo lá. Aguarde instrução final.
Sobre sua cabeça, na ronda ostensiva, o helicóptero se aproxima mais e mais. O ladrão segue à T–25. Por coincidência, ou vagas suspeitas, a patrulha voa na mesma direção. O ladrão retira os maços do bolso, a carteira e a arma, e põe no porta–luvas.
–Carro no ponto. Coisas dentro. E agora?
–Passa o fone pra velha. Foge de mãos pra cima. Se olhar pra trás, vira peneira. 
–Alô, – disse a velha.
–Tudo bem, D. Joana. Quietinha aí no carro que eu tô buscando a senhora.
Ao chegar, minutos depois, a velha reclama: 
–Tonny, você fica com brincadeiras. Já estou atrasada pra injeção!