Quando Gerleycleison nasceu, a família transbordou de felicidade. Todos mandaram emails e tweets. O pai, analista de sistemas, estava em outra cidade, pois a multinacional em que trabalhava sempre o remanejava de posto. A mãe, operadora de telemarketing, não precisou sair do emprego para dar luz ao filho. Lá mesmo, na hora exata do parto, foi substituída. Teve o filho e voltou seis horas depois para continuar o trabalho. Da mesa do parto, enviou mensagens segundos antes de ser anestesiada: “Vamos estar torcendo, pois irei estar  comunicando em breve, após estar falando pro médico estar tirando uma foto do neném”.

Gerleycleison era lindo e os parentes, após verem sua foto no Facebook, concordaram que ele era mais lindo do que o iPad 37. Alguns mais afoitos já vaticinavam o seu futuro emprego: CEO da Apple, ali no entorno de Brasília.

Aos quatro anos ele já falava todas as línguas que o Google traduzia. De repente, começou a conversar sozinho pelos cantos, de maneira mais intensa do que qualquer outra criança. A creche informava à mãe e ao pai, através das mídias sociais, sobre esse hábito estranho do moleque, porém, no momento, todos acharam o fato muito bonitinho. Ah! De seis em seis meses os pais renovavam suas fotos, cada um a sua, e colocavam no Picasa da creche, para serem mostradas ao rebento, afinal, o amor dos pais é tudo que uma criança precisa nos seus primeiros anos de vida.

Quando o pai o conheceu, no seu sétimo aniversário, Gerleycleison lhe disse que mantinha contato com pessoas nos cinco continentes e a qualquer momento que quisesse. O pai lembrava, mas já não achou isso tão mais engraçadinho e resolveu visitar a esposa, mãe do garotinho, na empresa em que ela morava. Por incrível que pareça o casal reconheceu-se e trocou seu quinto beijo depois do casamento, o que não era um número pequeno nesses dias de tanta ocupação e correria. Quase foram taxados de desocupados. Resolveram então, nas suas férias marcadas para o próximo sábado e domingo (dois dias de férias? Um luxo!), levar o filho ao médico.

Exames aqui e exames ali, o doutor encontrou um pequeno caroço no lóbulo esquerdo da orelha da criança. Doutorado em Harvard, Cubatão e Tinfu, com telerresidência na China e Ceilão – viva a Educação a Distância! -, o reles profissional disse que nunca tinha visto um quadro assim. Concluiu dizendo que o carocinho não constava em nenhuma relação de casos da medicina internáutica e, tranquilizou, não passava de uma inócua virose.

Assim, Gerleycleison cresceu e conseguiu (na primeira entrevista!), emprego de gerente de contas numa companhia de telefonia, pois conseguia falar, sem utilizar qualquer aparelho, em todas as linhas das operadoras, menos em uma delas. Pensou em acionar a Defesa do Consumidor, mas desistiu depois de ficar cento e doze horas conectado no site do órgão sem qualquer resposta. Resolveu ir lá pessoalmente durante a folga da madrugada, mas abandonou também a ideia ao perceber, pelo Google Earth, que a fila para esse tipo de reclamação dava voltas em dezessete quarteirões, aproximadamente. É que a quantidade de carros transitando nas ruas e também nas calçadas não deixavam nítidos os limites rua / calçada.

Porém, a notícia da sua estupenda capacidade, a custo zero, espalhou-se e Gerleycleison, aos dezessete anos, foi sondado e contratado como um grande executivo de comunicações da FoxConn, com o salário em aberto. Muito dinheiro! Isso era o sonho da humanidade!

Assim, multimilionário, e com um corte de cabelo moicano, passou a colecionar – instruído por uma instituição financeira -,  fotos raríssimas de árvores, além de autógrafos antigos, já ninguém mais sabia o que era caligrafia. Bem orientado, tentou também comprar um livro de poesias, mas aí já era demais, pois o último exemplar fora enterrado há décadas numa cápsula do tempo onde se lia: “Coisas inúteis que um dia a humanidade usou – Não riam”. Dizem que na cápsula também podiam ser encontrados manuais de bom convívio para condomínios prediais e horizontais, cartilhas de como se comportar no trânsito e textos sobre a importância de um professor. O mais estranho eram cd’s com relatos sobre antigas e extintas organizações humanas, tais como família, amigos e grupos que se preocupavam com outras pessoas sem qualquer interesse material.

Já mais velho, ficou com alguém num Happy Minute após o expediente e casou sob um contrato de 2 anos. Tempo suficiente para programar a fecundação, gestação e nascimento do filho, tudo com a melhor engenharia genética disponível. Radiante, vangloriou-se por ser o seu filho reconhecido mundialmente como o primeiro espécime realmente puro de homo videns, decretando o fim do homo sapiens, amplamente divulgado, principalmente nas redes televisivas, é claro.

Muito famoso, Gerleycleison atingiu o Nível 5 de Felicidade Plus do maior banco do mundo, o qual já era dono de vinte e sete países e negociava a obtenção de parte da Lua.

Certo dia, ao receber uma notícia sobre doação de órgãos, entrou por curiosidade num portal especializado. Sua gargalhada ecoou pela cobertura blindada quando viu abaixo do seu nome uma lista de pessoas que esperavam a doação do seu lóbulo esquerdo. Uma lista muito mais extensa do que aquela na qual se aguarda um simples e nada prático coração.