Vou-me embora pra Brasília


Lá sou amigo do Arruda

Lá tenho a muamba que eu quero

Na meia na pasta na sunga

 

Vou-me embora pra Brasília

Vou-me embora pra Brasília

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que a Justiça cega surda fanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser conivente

Da esbórnea que nunca tive

 

E como farei trambiques

Esconderei em gabinetes

Darei
suborno brabo

Fuçacei da Esplanada

Até o Lago Paranoá!

E quando estiver cansado

Reúno comparsas de brio

Mando chamar Jesus

Pra lhe contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Mamãe me ensinava a rezar

Vou-me embora pra Brasília

 

Em Brasília tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De tapar a corrupção

Tem gravação automático

Tem debiloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver rico

Mas rico de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me mandar

— Lá sou amigo do Arruda —

Terei a grana que eu quero

Na meia na pasta na sunga



Vou-me embora pra Brasília

 

(Manuel Bandeira – Edival Lourenço)