Minha alma é triste

 

Minha alma é triste

como cerrado goiano.

 

Minha alma existe

sem ter achado o que amo.

 

Minha alma insiste

Ao menos na beleza:

 

poemas feitos de hibiscos

- brincos rubros de princesa.

 

Retirado do livro “A Forma do Coração”, pag. 109, Yêda Schmaltz.

 

 

(Cobra-cega I)

 

Viola e violeta,

flauta doce e dália,

me observas

a partir dos teus silêncios

e cansaços.

O ar que nos separa é tão distante

e há rede de treliças

debruçadas.

Essa tua tristeza

me consome.

 

Retirado do livro “Chuva de Ouro”, pag. 49, Yêda Schmaltz.

 

 

III

 

Meu oco, me vazio, meu entre-

parêntese, meu quase.

Meu brilho, minha luz

e meu filho.

Minha questão, meu ás

e meu zape.

Minha reticência.

Minha equação,

meu logaritmo,

meu lugar e meu ritmo.

 

Retirado do Livro “Chuva de Ouro”, pag. 145, Yêda Schmaltz.

 

 

Mandalas

 

Morangos

eram

teus sentimentos.

 

Vermelhos

como o amor feito

diante dos espelhos.

 

Mas áridos,

amargos.

 

Sou mais o cio

da melancia

aos teus morangos

feios.

 

Sou mais

as doces peras

mudas

dos meus seios.

 

Retirado do livro “Baco e Anas Brasileiras”, pag. 57, Yêda Schmaltz.


 

Viagem

 

Fazemos esta viagem juntos

Como estão distantes os outros passageiros!

Estarão no mesmo trem? Em que vagão?

Na capota do carro? A bordo do avião?

 

(Os poetas configuram-se em metáforas

fazendo uma viagem pelo espelho,

voando por um mar de alegorias

e aquele fruto é doce e está vermelho.)

 

 

Fazemos esta viagem juntos

por dentro dos nossos manuscritos

- fonemas e sons, nossos ministros.

(A poesia é descanso e prisão,

um balanço, uma lua, uma rede.)

No mais, o resto é a separação,

o inter/dito.

 

Os poetas são ânforas

Com sede.