No último dia 28, What Pet Should I Get?, obra póstuma de Theodor Seuss Geisel, ou simplesmente Dr. Seuss, desbancou o lançamento editorial mais importante dos Estados Unidos. Go Set a Watchman, de Harper Lee, estava há duas semanas no topo dos mais vendidos da Amazon e deu lugar a uma obra voltada para o público infanto-juvenil.

Mas, em um mundo cada vez mais visual e digital, onde a brincadeira é no computador e o filme é assistido via streaming em um tablet, qual é a fórmula do encantamento que esses livros têm para se manterem cativando jovens e crianças?

Para a professora de literatura da Faculdade de Letras da PUCRS Ana Maria Lisboa de Mello, o grande segredo está na linguagem simbólica usada pelos autores para transmitir alguma mensagem:

— Ela responde ou repercute nas inquietações que a criança tem dentro dela e que fazem parte do seu desenvolvimento. Essas histórias formam leitores, pois só vou achar que ler é bom quando livro preenche algum vazio, mesmo que inconscientemente. As histórias modernas, muitas vezes, não fazem isso.


O psicanalista e escritor Celso Gutfriend compartilha dessa ideia. Para ele, os clássicos têm em comum, em primeiro lugar, a sobrevivência no tempo e, depois, o fato de tratarem de assuntos que precisam ser abordados com as crianças mas de forma não explícita:

— São temas importantes, não é uma frivolidade qualquer e que são tratados de forma muito metafórica, muito simbólica. Oferecem isso de uma maneira que a criança não se sinta ameaçada, mas segura — comenta ele, acrescentando que outro aspecto relevante é a capacidade de fantasia dessas obras:

— As histórias viajam, fantasiam, e a criança precisa disso.

Mexer com o imaginário dos pequenos também é um trunfo desse tipo de literatura. Ela propõe uma conversa com o público e é capaz de ultrapassar a barreira do tempo.

— Eles trabalham com sonhos, imaginação, fantasias discutindo questões necessárias para os jovens — fala o escritor Caio Riter.

Ao tratar das características técnicas, é possível perceber que essas obras se apresentam de forma muito simples: usam uma estrutura linear e têm um vocabulário restrito.

— São textos com uma objetividade visível e mantêm o começo, o meio e o fim — analisa o escritor e professor da Faculdade de Letras da PUCRS Luiz Antonio de Assis Brasil. Além destes aspectos, ele ainda ressalta a existência de um protagonista repleto de virtudes e inseguranças que se enreda em uma situação e se vê obrigado a sair dela.

— Ele normalmente é alguém que quer muito alguma coisa e esse querer é contrariado, mas no fim ele acaba vencendo essas forças contrárias. Há luta do bem e do mal e o bem acaba vencendo.

Outra ferramenta muito comum nessas obras é a brincadeira com a língua. Jogos de palavras e rimas apresentadas em textos e poemas também fazem os olhos dos pequenos brilharem.

— De repente a criança se vê refletindo ou se dando conta que a linguagem é um objeto, que ela pode trocar a sílaba de lugar — exemplifica o professor de Literatura e escritor Luís Augusto Fischer.

 



Títulos recentes agradam adultos e jovens

Clássico ou não, muitas vezes algumas obras direcionadas para o público adolescente acabam caindo nas graças dos adultos. Impulsionados pelo cinema e pelo boca a boca que geraram, títulos recentes, como A Culpa é das Estrelas e Jogos Vorazes, se tornaram sucesso entre os mais velhos.

Apesar de não divulgar número de vendas, a editora Companhia das Letras, que possui o selo Companhia das Letrinhas, garante que títulos infantis, como Malala, a Menina Que Queria Ir à Escola, teve uma venda equiparada a títulos adultos.

No âmbito dos livros que passam dos 50 anos e que seguem no topo das vendas, o grande exemplo é O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. De acordo com a assessoria de imprensa da Livraria Cultura, a obra da década de 1940 está sempre entre os dez mais vendidos na loja.

Quem foi Dr. Seuss

Theodor Seuss Geisel nasceu nos Estados Unidos em 1904 e morreu em 1991. Autor e ilustrador de diversas obras voltadas para o público infantil, tornou-se o nome mais popular do gênero no seu país. Suas obras trazem ilustrações, rimas e jogos de palavras. Já vendeu mais de 650 milhões de exemplares e foi traduzido para 18 idiomas. O autor escreveu e ilustrou 44 obras para o público infantil. Um dos mais conhecidos é o O Gato da Cartola. Em 2012, The Lorax, publicado em 1971, virou longa-metragem dirigido por Chris Renaud. O filme traz uma mensagem de preservação da natureza.

Recentemente, a obra What Pet Should I Get? foi publicada nos Estados Unidos 24 anos após sua morte. Os textos foram descobertos por sua esposa, Audrey Geisel, e uma assistente em 2013. No livro, ele narra a saga de dois irmãos que vão até uma pet shop comprar um animal de estimação e se veem diante de um dilema: qual bichinho escolher? Um cão, um gato, um peixe ou um passarinho?

No Brasil, quem tem os direitos das obras de Dr. Seuss é a Companhia das Letras, que já traduziu cinco obras do autor (as obras tem o texto em inglês e português). A editora afirma que vai reeditar as obras que já têm e acrescentar mais títulos à coleção uniformizando e modernizando o projeto gráfico. Os livros também terão preço alterado para se tornarem mais acessíveis ao público brasileiro. A editora já está negociando para trazer estes último título ao Brasil.

 

Fonte: Jornal Zero Hora.

Imagens: Google.