De Flores e de Calçadas


01: eis aí, o duro ofício de se descer aos infernos
E resgatar o nada do que se amou um dia.

 
Frutas abrem-se nuas aos gestos lascivos,
Risos se desdobram em cortes e se calam.

 
Poucas são as cores abertas dessas flores,
Venenos e véus sobre as calçadas, jogos
Que se tocam nas harpas do dia.

 
O amor dos homens se esgarça nas alturas,
Pelos disfarces dos vôos, pelas asas da luxúria.

 
Pelo que se vê, pelo que se via, o toque
Dos togados aflora a toca das coivaras,
Aflora a dança das galáxias perdidas.


02: enganam as pombas, as serpentes de
Transparentes venenos. Os bichos de repasse
Mostram-se como veias (como certas flores,
Ou cães sem rabo), docemente dormentes.
Que deus os guarde! 

 
Mas há a parceria de cores que seja entre o cerrado
E as flores: perfume de uma rosa qualquer.
Fios de poeira a enrolar-se nos pés das gravatas.
 

03: as secas são cheias de nomes, as graves
Urgências: não mais o mal das águas, não mais a fome,
Que outra canção se irá cantando: com jeito
De roupa suja, caramuja.
 

As cacimbas, as caçambas, o que se fez:
As escadas, as escaladas nesta viagem ventaneira. 
As surpresas por debaixo da mesa,
As águas navegam.

 
E pensar em outras flores não se pode,
Que estas são plantas do cerrado,
Rosas metálicas,
Nunca dantes reveladas.

 
 

Bem Sabe Goiás da Sua Linguagem

               para leo lynce, em memória

 
Ainda há quem te veste de aragem sagrada,
Goiás, os teréns, feito dentes de engrenagens,
A mapear teu rosto. Do outro lado,
O araguaia te olha,
 brancoacinzentadometalpássaro
Domado numas ânsias.
Goiás é rio bagagem, sombra das cruzes,
Das almas que gritam seus nomes nas praças. 

Goiás é rio, rosto em espelho,
Enredos de céus e mares a caminhar
Sobre leitos. Rude, ruge longe o afligir
Das serras de dourados veios, mas a terra
Que se queria santa, coisas que nunca vão
Se explicar. O que se pensa, se bebe, se fala,
O que se tira arreado do barro: os copos que se fazem
De alumínio, mais a pinga que se tem ardente.
Canecas, arreios e bacheiros já usados em montarias,
Estribos esporas, tropeiros.
Cachaçabranquinha. Tigela de fogo comida nas beiradas. 

 
Sejam mais as mulheres a entoar cantos
De louvor a maria, são pássaros de exato
Presépio ou de folia.
Quentes as flores dos cafezais, os arrozais em cachos,
Dormindo semi-abertos, sonambulam no chãoterra
Feito tesouro criado entre quatro paredes, o pão necessário.
Há um cheiro, um gosto de sol no ar, goiás.
E tudo parece novo, como uma confidência:
E, sob dois corações entrelaçados,

 
Nomes cravados na porteira,
Cortados a canivete,
Feito anéis nos troncos, a fac
Cravada na madeira, por se dizer,
Igual estrela que se reparte.
Melhor deixar vestígios, a graça da eternidade
E a breve sombra do pássaro escondido em suas asas.

 
Melhor fora conservar teu y, goiás,
A louca forma de pássaro, narciso vago
E impreciso, beleza que há muito tempo
Não se colhia. Melhor fora conservar-te
Príncipe, goiás, jeito bom de amadurecer
As flores,
Igual outro país que se descobre, a febre
Da paixão deitada em tuas faces.

 
Tem fome de vida, tua paisagem, goiás.
Caminhos de chuvas, areias que nunca
Tiveram donos, geométrico pássaro
Talhado no fundo das águas a pulsar
Transparente, tocado pela brisa, a modular-se
Em erotizadas malícias.

 
De longe se olha a doçura de teu nome, doce
De manga no tacho de cobre, cheiro de pequi ardendo
No ar. O abrir-se do amarelo vivo que se consome
E não se morde. Nervuras de espaços na paisagem
Que se apaixona, ousadas formas de sonhos
Que prosseguem caminhando a sua história.

 

Goiás, doçura de tacho de cobre,
Forma ousada de praias, os reflexos
Aos milhares, o acordar de cores,
Delírios que nunca se acabam.

 

Os Ventos

 

Ritmo louco, os ventos. Pontas finas de lâminas
Frias, sanhas de asas verdes de canas.

 
O que vai e vem os ventos levam sobre areias,
Sobre pedras, difícil é sair de suas aragens.
 

(de curta emboscada, os ventos, é certo que fascinam)

 
Bicho de céu e chão, poderiam voar mais alto
 como os pássaros à caça, a presa e suas garras.
 

Bate forte o vento sobre as portas nuas das barcas,
E se inclina ao fogo, nascido nas manhãs de domingo.

 
De extintas casas, nascem os ventos, trilhos por onde
Nunca se passam. Tudo é ácido, e é doce, e é crível:
O levantar de vôos de promíscuas palavras.
 

E bate, e bate forte esse cavalovento. Pupilas que
Se cruzam pelas pontes, clareiras de raízes que se perdem,
Crinas acinzentadas atravessam os astros.
 

Bate e bate esse pássarovento inventando nomes
Assassinados. Verdes frutos que o orvalho guarda
Sob as pálpebras, e outras águas devoram


Devoração dos Dias

 
Como não devorar esses dias,                                                                  
(consciência de mim), se ao nascerem
Em mim, em mim se devoram?
 

Antes saber guardá-las, colher
O que nunca se sabe ou se adivinha.


Debruçam-se em gritos esses janeiros,
Os sonhos maiores do que andaluzia.


Pois aqui, nesta paisagem fria, debatem-se os
Medos, mistérios incorporados a outros dias.
 

Melhor sonhar com amores imaginados como se é preciso.
Pois livres estão os touros, os mouros a se matar pelas favelas.
 

Talham-se corpos a ponta de faca, as bocas secas apagam
As flores azuis dos muros. Os pássaros ficam

À espera de que nunca anoiteça e vagam doídos 
Pelas ruínas.
 

Nunca se sabe dos passos dessas noites,
Se não se vêem as portas abertas dos dias.

Difícil fechar o mar, espesso modo de agonia.