Dualidade
A poesia,
no assombro da noite,
esfacelou-se.
Há a que se expõe
nas palavras, linhas
e metáforas
na distância das horas.
Há a que se esconde,
sob o pulso
que a(r)dia
sonho, prazer
e fantasia.
Uma anoitece,
sem forças em conter-se,
para a outra conseguir
subviver.
Em Pele
Remete o sentir à própria vida
afeito ao âmago amargo
da solidão compartilhada,
em intensas metades.
Pleno em sentimento.
Inteiro em saudades.
Remete o corpo à própria vida,
trêmulo e desajeitado,
cálido e alegre,
se guardava em pele.
Celebra amaravida,
que não mais será singular.
Melipilla
É tempo de plenitude,
completude e emoção.
Não acorde o sonho.
Pise leve as estrelas.
Silenciem as nuvens.
Se é possível
continuar sonhando...
Onde dormir para sempre?
Empatia
Vem aprender-me:
retire dos olhos
as vendas adâmicas,
Afaste as máscaras
que reflete em mim.
Coloca-te onde estou.
E vê,
com os olhos
de minha alma,
todo o universo.
Aprenderá assim,
de infinita forma,
o Eu de mim.
Fome
Nenhum alimento
sacia a fome
do amor ausente.
O ser se consome.
Resta um resto
de saudade.
Entrega
Êxtases partilhados
com tua ausência.
A dependência
do não ser,
querendo teu ser.
As noites buscam o sol
que chega lentamente.
Os olhos ao léu
vêem noites infindas.
E no breve amanhecer
tudo se torna claro,
senão o sentimento.
Vem o recomeço:
o sedento e gostoso
tormento
de se adolescer,
da espera virtual,
do prazer à distância
e do calor infernal
de querer ser teu ser.
Não. Não consegue!
Entrega-se
ao vulto que vê
sem que jamais
tenha visto.
Finados
Parabéns a você
que morreu para mim.
E como matar o que está na pele,
na história, na retina e na memória?
Volte!
Antes que eu morra
de amor por você.
Nada
Não mais fim de semana,
nem lindo amanhecer.
Não mais águas de março,
só estar com você.
Não mais pôr-do-sol,
nem chuva na plantação.
Não mais eclipse lunar,
nem luar do sertão.
Não mais brisa da manhã,
nem leve sopro do vento.
Não mais olhar as estrelas,
nem o melhor pensamento.
Não quer mansidão das águas,
nem o silêncio da mata.
Só saciar a fome,
na solidão que desata.
Nostalgia
Saudade,
já não cabe em si.
Evola nos poros.
No sombrio olhar
se deixa ficar.
No soluço da alma
plangia ausência.
Não disfarça a efígie:
fantasma de um
que o outro não tem.
Saudade,
camufla alegria,
contagia tristeza,
suprime euforia.
De quem outrora,
por não ser assim
era tão infeliz!
O Avesso das Horas
Teço o que sou
no vazio dos dias.
Sigo no avesso relógio ao c
o
n
t
r
á
r
i
o.
O tempo tem seu tempo contado,
faz do sonho o inimaginável.
Há quem responde a completude do ser?
Senão às horas, aos dias, ao tempo
e à angústia de viver?
O ser ressurge
do sêmen que à vida jorrou.
E o criador fez a criatura
viver infeliz abismos noturnos.
Sequer importa a vida lá fora,
acorda a morte prematura.


