Farol
Flor amarela na praia,
Farol à luz do sol.
Ir sem rumo, não explicar
Porque luz amarela é farol.
As coisas são como são
E eu penso nelas sendo
Como quero que sejam:
Um farol e tudo o mais.
Dispersão
Eu estava ali,
Sem ficar, às tontas,
A mulher veio
De onde não sei,
De repente grita
"meu poeta" e se vai,
Eu fico um minuto
Longe dali,
Sem saber o que
Move certa gente
A ser tão dispersa
Como eu.
Definição
O poema
No avesso do som,
No refúgio do silêncio.
Não espero sol
Nos versos que gesto.
Defino a margem
Na sombra.
Castelo
O artista molda seu castelo na praia.
Que proveito tiras esculpindo a areia?
Nenhum, diz — e acompanha, no azul,
O silêncio do vôo infinito da gaivota.
Silêncio
Meu silêncio é de dentro,
Não ausência de sons.
Silva o vento e eu escuto o vento,
Sem falar na sonoridade
De meus oblíquos passos.
Meu silêncio atroa nos cantos
Escuros do ser aturdido,
Ajunta-se a outros silêncios
Que me acompanham na vereda
Por onde caminho, perdido.
Meu silêncio deixa-me vígil,
Como se mil tambores surdos
Percutissem meus pobres tímpanos.
Meu silêncio retumba na estrada
E, um dia, ecoará na tumba.
Gritos na Noite
Um grito cinde o crepúsculo
E gritos invadem o quarto.
A noite invade o domínio
Dos gritos, sangra o crepúsculo,
Rebelam-se as sombras das cores.
A cor dos gritos, a cor da noite
É selvagem como o crepúsculo.
O silêncio, o imprescindível silêncio
Oculta os gritos dentro da noite.


