Semi-acesa

Aquela  lâmpada  de luz  tímida
retorna  semi –acesa 
ao refúgio do meu quarto.

Não acredito  que  tenha   pretensão
de  iluminar  a  noite 
que  ali  dentro  dorme,
mas  sim os meus  delírios  acordados.

Abastece-se  com  um pouco  de lua
 que  entra  pelo rasgo da janela
e  no piso descarrega a luz 
que sobe pelas  paredes .

Empresta um feixe luminoso
para  a minha roupa  de dormir
marcada  de remendos
e para a minha touca 
úmida de orvalho.

Acesa, a luz que  pensava
ser  cálido o canto do meu quarto,
 assusta-se   diante da solidão
que dorme do meu lado.

Choramos a luz e eu
sob o abajur estático.

Coluna de Pernas

Ao revés
da maioria de nós
são-me raras
as enxaquecas
e nunca cataloguei
tensões pré-menstrual.

Mas desde que nasci
carrego penas na coluna
porque meu coração
é a coluna do meu eixo.

E quando ele se dobra
ao peso das arestas,
incita-me ao diálogo
com minhas febres íntimas
que em reprise
pisam o meu chão fatigado
de promessas.

É esta dor sem nome
as penas que em mim
habitam
e o meu texto sentido
habilitam.

 

Travessia
 
Celebro a travessia:
no meio do deserto
a passarela.
O meu exército
de luas
cansado do caminho
cansado da viagem
ferido de espinhos
se apega à existência
de um Deus humano
e único

Um Deus
que mora ao lado
e sabe que sou gente
um Deus apaixonado
que sabe que o poeta
é bicho descuidado
que põe o coração
no disco voador.

Celebro a travessia:
quando esta dor ficar
atrás das minhas costas
hei de perder de vista
a casa decomposta
e ser um bangalô
marcado de poesia.

Um brilho diferente
há de entrar na casa
para incendiar
o meu colchão
de penas
ligar a luz da sala
abrir minhas janelas
trazer-me
um novo amor
que seja amor
apenas.