Fragmentos do poema Walquiria e Velsungo

 

há uma janela que nunca se fechou

esperando aquela primavera;

disse que vinhas borboleta

─ esfinge?


 

Nascem heras

onde haviam caminhos

e espera nas minhas pernas.


 
Vinhas voz de pirilampo

pingando

fios chovidos de alfaias e tangos

que pra mais valer,

antes de começar a colher as estrelas de hoje

apanharei teus olhos orvalhados da noite de ontem;

 

quando do alto

numa estrada ladeada de vinhas

e estacas floridas,

vinhas

bailando prateadas palmilhas sobre chamas

─ de São João?


 

Bordaremos sorrisos,

tombaremos paraísos perdidos,

e noutros panos dançaremos a vida manuscrita

nas cabeleiras de um fogaréu esquisito.

 

Quando à tarde lanceta

de azul e  memória

─minhas noia

é um sarilho arrastando

aqueles vedes dos seus olhos;


 
se choro,

miríades de rosas e amoras

desfraldam nos ventos

o tormento desse amor;

quero o cruzeiro do sul

no meu peito

antes de a noite nos deixar

e Vênus se for.


 
Chovia, e bebíamos,

bebíamos o desastre e a súplica sedenta

dos antepassados sepultos

em nossas avivadas veias;


 
à luz das velas estendidas nos caibros,

taramelas,

e chão batido de pés antigos,

onde mais nada morre,

onde mais a vida é tudo que não se quer

─ te espero...


 
Se desespero

sigo desdobrando o dentro

de onde você veio;


                                                      
de outras veias

saltam dourados olhos nas palmas das minhas mãos,

faço rastros de estrelas quando gesticulo o futuro


 
─contudo,

ela, aquela que se guarda por detrás das taramelas,

salta sonhos luzidios em versos e grãos

debulhados do balir das fadas

forrando cobalto

às costas dos significados


 
─tua voz?

Vestia de girassóis os prados,

lembrando Saint-John Perse

e campos em Incas idades

germinam a viração do tempo.


 
Elegante,

A névoa pairava sobre a solidão das lápides,

janelas

e a imensidão de maio;                      


 

se

na taberna o frio trazia

relembres em nossas pálpebras

debruçadas naquela infinita tristeza

sejamos tristes então,
 
─ tristes e amantes ao longo dessa epiderme.

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Mauro Leslie é natural de Iporá. É Vencedor da Bolsa Hugo de Carvalho Ramos 2008 com a obra Funeral da Primavera.É titular de treze prêmios literários em contos e poesias. Dois livros no prelo contos e poesia, sendo o segundo selecionado por duas vezes no Premio Sesc de Literatura.