Flor sem nome
Você, florzinha
que vive enfeitando o campo,
que namora o pirilampo
e que o poeta esqueceu.
Você, florzinha
que cresce junto ao capim,
que nunca viu um jardim
senão o que Deus lhe deu.
Você, florzinha
adormecida ao relento,
embalada pelo vento
que varre toda a campina.
Você, florzinha
esquece a dor que a consome
só porque é flor sem nome,
mas é linda e é divina!
Você, florzinha
que na manhã orvalhada
perfuma a beira da estrada
por onde passa o meu bem...
Você, florzinha
procure imitar a rosa:
seja imponente e vaidosa,
pois você é flor também!
(Anoitecendo – Thesaurus, 1988)
Certa Noite no Araguaia
Lembro-me ainda, era madrugada.
Chovia estrelas nas águas do rio.
A meus ouvidos não dizia nada,
Aquele alegre e doce vozerio...
Ali fiquei estático, absorto,
A desfiar todas as minhas mágoas.
Certifiquei-me – não estava morto. –
Ouvia apenas murmurar as águas...
Lépido espelho refletindo a luz,
Como quem colhe, passa e não conduz.
Eu quis ouvir e quis entendê-las.
Confuso som, talvez de um atabaque.
Pois só quem ama, dizia Bilac,
Pode ouvir e entender estrelas...
(Quando Voam as Borboletas – Kelps, 1999)


