Edival Lourenço

Hesito: Edival Lourenço escreve crônicas ou ensaios? Os textos de “O Elefante do Cego” não são exatamente crônicas ou ensaios. (Assim como Machado de Assis não era nem romântico nem realista. Era Machado de Assis, um autor que, ao seu modo, saltou adiante do romantismo e do realismo, dos quais, possivelmente, ria, porque as reduções, úteis para compreender determinados autores, quase sempre são inviáveis quando se trata de interpretar os mais complexos, como Laurence Sterne e o “mágico” que escreveu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.) Bem, se não são crônicas nem ensaios, o que são? Talvez crônicas-ensaios, ou ensaios-crônicas – puxando para a crônica, mas descaracterizando-a, pondo-a a serviço de ideias. São, em regra, mais elaborados do que a crônica, e tendem à permanência, porque não datados e, mesmo quando datados, a luz infinita do humor contribui para gestar certa permanência. (Sim, há cronistas, como Machado de Assis e Rubem Braga, que perduram. É fato, mas são exceções.) Também não são ensaios clássicos, de matiz acadêmico, e não discutem, necessariamente, livros, embora livros e autores sejam citados para ilustrar a discussão de determinados assuntos. O naturalista Darwin e o filósofo John Gray são mencionados, mas suas obras não são examinadas centralmente.

Os artigos de Edival Lourenço são, sobretudo, ensaios sobre a vida. São ensaios não diluvianos, de alta pretensão, exaustivos. São ensaios curtos (publicados no Jornal Opção e na Revista Bula) e, mesmo assim, de rara perspicácia e concentração. São tentativas de compreender o homem e seu comportamento a partir de determinados “casos” acontecidos recentemente. Sua universalidade resulta disso: não “discute” tão-somente temas datados, do dia a dia; antes, os temas datados, do cotidiano, são utilizados para se fazer uma discussão mais ampla sobre o humano. Aí, sutilmente, o ensaísta Edival Lourenço supera o cronista. Há um quê de filosófico nos ensaios, sem o lastro discursivo dos filósofos.

No ensaio “Herói Cubrado & Retumbante”, Edival Lourenço procede a uma desmontagem do Hino Nacional Brasileiro. Não se trata, digo logo, de uma análise esquerdista, de um ataque ao nacionalismo. Trata-se de uma divertida análise, quase linguística, do que tem de curioso. Ou até, digamos, do que não tem, mas sugere ter. Lula da Silva, José Dirceu e Fernando Collor surgem, quase do nada, como personagens prováveis do hino. Na verdade, escaparam da realidade para sambar na ficção. Edival Lourenço não é explícito, mas sugere que devem ser tratados como “coisas” do passado, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Noutras palavras, o ensaísta-cronista mostra, sem dizer claramente, que o poder é temporário, como todos os homens. Napoleão passou. Lula vai passar, está passando, como passaram Fernando Henrique Cardoso e seus livros esquecidos.

“O dedo mindinho de Lula” apresenta vários assuntos, como o dedo “cortado”(,) mas “onipresente” (fala-se mais “dele” do que dos outros) do presidente, a física quântica, que, embora tida e havida como ciência, presta-se à farsa. Como Edival Lourenço mantém uma relação de prazer com a língua, portanto com as palavras, “assiste-se”, sério e rindo, à tese de que “a grande derrocada do Congresso foi deflagrada justamente pela última reforma da língua portuguesa”. A ironia fina do autor serve-se de fatos objetivos para que possamos rever a realidade, entendendo-a quase como fictícia: “Veio o artigo 49, inciso VI da Carta Magna de 1988, e disse: ‘É competência exclusiva do Congresso Nacional mudar temporariamente a sua sede’. Sem o acento diferenciador [circunflexo], o texto produziu uma ambiguidade cabalística, capaz de perpetrar o caos e o descaminho”. Pois é: tudo, ou quase, começa pela e na linguagem. É o que Edival Lourenço está nos dizendo sobre “sede” e “sêde” (a “doença” da família Sarney, de PC Farias e Collor e outros). Sempre com uma ironia fina, no lugar certo. Tão certo que, às vezes, não se percebe que está sendo irônico.

“O dia em que Lula amarelou Putin” tem caráter antropológico. Porque, para além do que Lula “disse” a Putin, sobre privilegiar um astronauta brasileiro, Edival Lourenço analisa, com rara graça, o famoso e incontornável jeitinho brasileiro – a única “filosofia” na qual somos PhDs.
O ensaio “AsParTame” pergunta: “O que tem em comum o Partido dos Trabalhadores com o AsParTame?” E responde: “O princípio ativo. Ainda que não seja o princípio químico. Mas o princípio semiológico. As duas consoantes oclusivas, surdas, orais. Uma bilabial e a outra liguodental, P e T, que se destacam na formação dos significados. A resultante da reação dessas letras é prejudicial à memória”. O que Edival Lourenço está a dizer, ao estilo de Bernard Shaw, é que, mesmo quando pego com a mão na massa (dinheiro público), integrantes do PT dizem que não sabem de nada. O aspartame, segundo algumas pesquisas, também provocaria danos na memória. O que diverte é a mistura do aspartame, da linguagem, a percepção de que as letras P & T pertencem ao adoçante e ao partido, com a realidade política. Fazem parte do mesmo universo paradoxal.

A lição que resulta dos ensaios de Edival Lourenço, se se pode falar em lição, porque o autor não é moralista, é francamente grega: é seminal rir do trágico para se divertir e, ao mesmo tempo, não enlouquecer. Não se deve levar a vida tão a sério. É preciso rir das grandes e das pequenas desgraças e mesmo das não-desgraças. Rir do “menas” de Lula(,) mas também do mendigo às vezes farsante que pede esmolas nas ruas. E, claro, escapar do empobrecedor politicamente correto, ao menos na linguagem.

Lidos em conjuntos, percebe-se uma unidade nos ensaios – é a biografia de um período que transcende este período. O humor refinado e calibrado, a ironia, o ceticismo e o não engajamento político, porque duvida-se de tudo, sugerem que Edival Lourenço é um ensaísta que nasceu adulto e escreve muito bem. De quem se deve cobrar, tão-somente, que resguarde mais o cronista e explore mais o ensaio daqui pra frente. Sem perder a graça e a leveza do cronista. 
 
*Euler de França Belém é editor do Jornal Opção.