A Tinta Infernal de Clara Dawn - Em “O Cortador de Hóstias” – um cosmorama inesgotável de estéticas


Em Clara Dawn não se exaurem nunca as modulações e acrobacias transformistas que dão ao texto um revoante cenário de abstrações e múltiplos rituais expressionistas.

Na abrangência generalizada de suas publicações anteriores, rastreiam-se conotações que podemos alinhar em itens que vinham aflorando em crônicas e romances: capacidade ilimitada de reformular a estrutura convencional de muitas figuras de estilo, como faz com a metáfora, amplificando-a linguisticamente.

Dessa maneira comparativa entre duas palavras, como é a forma usual, ela cria primeiramente um enovelado de ideias que levam o leitor a sugestões e expectativas de inúmeras imagens já admitidas antes como definitivas em suas intenções sugeridas, mas o arremate do texto, em contraponto a tudo que se estabeleceu, culmina num fecho de ambivalência, de paradoxo surreal, às vezes levando, isto sim, o leitor a um solilóquio desconcertante e inusitado.

A versatilidade, que é o seu fundamento principal e que resultaria na pletora mirabolante de estesias em “O Cortador de Hóstias”, irrompe também adotando Chaplin como símbolo e patrimônio canônico de arte trêfega e multivária.

Passa sua prosa nos moldes de narração contrapontista e de incursões incompletas definidas de um romance entre ensaísmos literários de psicologia, mesclado de lances policialescos figurados.Atenta-se que este gérmen, agora em afloramento, geraria um fantástico e inédito (na literatura brasileira) parâmetro literário, como foi criado em “O Cortador de Hóstias”.

Clara Dawn tem a primazia do circunlóquio elaborado com exclusiva chancela pessoal, que se distingue, neste item, de Joyce, Proust e Virginia Woolf (aproximação, aliás, elegantemente expressa em “Um olhar estrangeiro sobre a obra de Clara Dawn”, na crítica hiperconsciente de Fátima Santana (Portugal) e endossada por Reynaldo Jardim, que a nomeou como a Clarice Lispector de Goiás. Isto porque a incursão desses fatores na técnica de monólogo interior em 1887 com “LeslauriensSontCoupés”, em Joyce, por sua impetuosidade criadora, se faz em torvelhinho de entrechoques fráseos, em Proust, se conduz o fluxo subjetivista dentro da caixa craniana do leitor e em Virginia Woolf os objetos se pulverizam em abstrações da sentimentalidade.

Já em Clara Dawn, esta escrita automática é revestida de outras dimensões que a formam e a fazem rica de facetas porque a autora converge na sua trama, com sutileza de prestidigitadora,arrebanhamentos e fractais, como se transplantados e arrolados de outras fontes, além de evolver a narrativa também em contrapontos, os quais ainda resultam em efeito que será focado mais adiante, criadores de uma característica literalmente inédita na ficção policial. É óbvio, ainda, que a criptografia é da essência subjetivista desse fluxo de pensamento que ,assim condimentado por todos esses ingredientes em fusão no texto, personalizam a exclusiva modulação estética de Clara Dawn. Aliás, salta aos olhos a reformulação estilística a que se obrigou com a faiscação merídia da linguagem em processo de eurritmia da frase, nocadenciamento da sonoridade vocabular pelo repique fonemático de feliz harmonização, construindo-se um dos esteios de estilização em um texto que usa uma estrutura estetizantemúltipla de facetamentos. Estes, por exemplo: nas páginas 15 e 46, a fusão do imagético ao organoléptico aromático consegue aquela proeza que Manuel Bandeira fazia recender em seus poemas, que, segundo Agripino Grieco, tinha o cheiro de carne feminina. Na página 25, usufrui da oralidade goiana e cria um capitoso naco escritural que nada deve aos soberanos e insuplantáveis textos de Bernardo Élis.

O realismo fantástico que repercute ao longo do romance ganha matizes dissímeis do modelo clássico. Este, geralmente, em fantasias lantejouladas e alegorizadas, mas quase sempre narradas somente pelo autor. Enquanto que “O Cortador de Hóstias” revela um tríplice artesanato de acrobacia escritural: o autor, um narrador e a própria personagem incrivelmente tramam o texto. Não há como não dizer uma genialidade arisca e esquipática de Clara Dawn... pois consegue esta mixagem com um conglomerado de fundamentos da estilística: torvelinha a linguagem e as imagens, surde criptografias e técnicaoperatória, desata o fluxo de consciência libertária libertina por uma escritura com e sem sequência (contrapontos), fragmentária e interrupta, encadeando o natural com o sobrenatural etc. etc.

Entretanto, não é só este aspecto remodelador do tipismopadrão do realismo mágico que a maleabilidade transliterante de Clara Dawn irradia: também comparece o caráterclássico desse cânoneestético nas páginas 23, 49 e 50 (alguns exemplos são Balzac, Erico Curado, Veiga Vale, aqui respectivamente tornados ficção), além disso ainda ressoando características que o universo inesgotável do realismo fantástico propicia, a descrição em que aparece o natural difuso no sobrenatural compõe imagens de martíriorembrandtdantes nas páginas 40 e 57, sendo esta última um medalhão surrealista em pavor e tintas infernais a la Dante Alighieri.

Nem o ensaísmoliterário faltou no elenco de simbolizações, uma vez que “O Cortador de Hóstias”, a partir da página 110, ensancha a dolente atmosfera do romance para focar o patrimôniohistórico de Pirenópolis. É óbvio que o livro não é um gêneroliterário do tipo romance policial. Contudo, pelo seu excepcional dispositivo temático-escritural, pelas ações esquipáticas da personagem central, pelo eixo contrapontístico dos capítulos (o que é o suporte fundamental do policial legítimo), indo tudo confluir em desfecho típico de estrutura detetivesca, compulsa uma fantasmagórica encenação de sherlockismoestético que nos leva a afirmar que Clara Dawn criou o policial mental. Neste torvelinhoso painel imaginário de “O Cortador de Hóstias”, a ascensão estilística atinge várias vezes a dimensão de página antológica com sagaz paleta descritiva de paisagem feérica em ouro e luz... e Clara Dawn fulgura incontestavelmente como consagração de primeira linha na ficção nacional.


 

Mário Jorge Bechepeche é médico e crítico literário.