Por: Marcelo Santos - Crítico Literário de São Paulo
O livro Poeira Vermelha de Leonardo Teixeira é composto por 19 contos em temática regionalista e prosa poética; dos 19 contos que compõem a obra, 12 foram premiados em 17 grandes concursos literários. Trata-se de uma espécie de regionalismo universalizado em grande estilo. Parece óbvio parear escritores do mesmo quilate como Bernardo Élis, Hugo de Carvalho Ramos e João Guimarães Rosa. Eugênia Sereno, para falar de mulheres; José Humberto Henriques e Manoel de Barros, para falar de gente viva.
A linguagem segue o mesmo sentido do conteúdo material, há virtuosidade no emprego dos vocábulos. É uma linguagem sempre rica que ganha a força da fotografia, do retrato do relevo psicológico das personagens.
A leitura de Poeira Vermelha de Leonardo Teixeira propicia uma viagem ao interior da nacionalidade, da brasilidade, e também uma viagem para o cerne das pessoas enquanto formação social, enquanto convivas e partícipes de um destino, esmiuçando a condição humana e o ser em conflito com ele mesmo e com os demais, tudo repleto de criatividade pelo desenrolar dos enredos. Enredos vivos, líricos e autênticos, cheios da graça, da violência e da aspereza do mundo sertanejo, retratam velhos hábitos culturais, religiosos, profissionais e inúmeros dados sobre a fauna, a flora etc.
Edival Lourenço assim escreveu: “nessas andanças pelas vias da criatividade, Leonardo Teixeira nos brinda com estes dezenove contos, onde se pode achar com igual riqueza a trama e a lisura, a indignação e a ternura, a prosa e a poesia, o drama e o riso. Com sua sintaxe às vezes surpreendente e seu palavreado crítico-inventivo, nos presenteia ainda o autor com metáforas bem construídas e entrelinhas recheadas, como as grotas de antigamente, de onde jorrava o ouro de aluvião”.
Quanto ao conteúdo, além da poesia e de toda representação cultural do mundo interiorano, há o registro da manifestação do homem em conflito com a sociedade, consigo mesmo e todo imaginário caipira, com descrições ricas do mundo geográfico, do habitat natural, do conhecimento das plantas e dos animais, da estrutura essencial das coisas do mato e do homem. O leitor encontrará personagens marcantes como o luthier e carpinteiro Tião Galego e seu companheiro de vida, o cachorro Trovão; o sufoco terrível do vaqueiro durante um estouro da boiada; uma saga pela mata e o confronto com uma cachoeira para salvar toda a comunidade. A figura máxima, intrigante e lendária de Zecabrito. O sofrimento que se finda na luta pela terra da infância de Edu Capim. Muitas figuras torpes, causadoras de problemas, sejam badernas como o personagem encrenqueiro Vadino, ou o tarado e brigão Rego-fulô. Outro personagem que causa estranhamento: Genaro Pança.
A trama esperta de Rubelino Pacortá para salvar seu filho Zizilo dos golpes. As histórias que permeiam o mundo da viola caipira; o velho coronel Jirômio e o trágico casamento com Darlinha, de onze anos; o tamanduá que fulminou a vida de Carlos; as viagens de Jonino pelo cerrado; Fabíla e sua vida dedicada às formigas; o pistoleiro Ubastião e suas tocaias. Essas e outras personagens envoltas num mundo vistoso, fantástico, áspero, real, rico pela linguagem, acabam marcando qualquer leitor.
“Agora as estradas parecem sumir da gente. Querem tomar parte de sua cota e andar por conta própria de cada trecho, espalhar suas ramas, alcançar açudes diversos. Hoje, ninguém consegue andar em todas elas, ainda que percorra toda a vida, desde precoce idade. Máquinas e rodas passam por cima de pés e cascos. Os andejos viraram esmoleiros de uma cumplicidade sem culpa.
A poesia foi quebrada em partículas, nas areias, nas gotas de sangue, de orvalho, em pingos de pinga, na chuva, desfazendo poeira, derrubando mosquito no alvo certeiro, nas coisas aparentemente inúteis, restabelecendo-se dia após dia. As estradas envelheceram dentro de seus buracos cheios de histórias. Entres suas partidas e retornos, ficam as lembranças dos que se perderam, dos que se aprumaram para nunca mais voltarem”... “As formigas vivem porque têm consciência da pequenez.
E é pela humildade que se eleva tamanho peso nas costas; a força do Universo as contempla. É diferente saber que debaixo de cada pisada tem algum rastro de minhoca fazendo afoufo arejado, e mais fundo passa um leito cristalino pra depois virar magma líquido ou pedra. Do outro lado tem outro caboclo meio contrário, assim invertido, passando pelas mesmas dificuldades, andando em outros rumos, fazendo parte da mesma estrada.”(do conto Estradas).
“O conto ‘Engenho de Almas’, que pela unidade da ação, pela densidade da linguagem e pela criação da personagem, narra com surpresa os fatos, situa com astúcia o conflito e apresenta traços metalingüísticos com forte influência de Guimarães Rosa. Nele, existem a centralização do tema e a possibilidade de reflexão do mundo externo à obra, propiciando ligeira tensão entre o texto e o leitor”. Professora Rivaldete Oliveira da Silva (coordenadora da comissão julgadora do Prêmio Cana e Cultura 2005) - João Pessoa - PB
Leonardo Teixeira é também autor de "Mergulhando no Pensamento” (poesia), “Afinadores de piano” (contos), e “As sombras do dia” (contos).


