Um romance polifônico - Por *Fernando Py



Autor de uma obra ficcional de qualidade, onde se destacam teatro, poesia, contos e principalmente romances, o goiano Miguel Jorge alcança o auge de sua produção com Minha Querida Beirute (Goiânia: Kelps, 2012, 632p). Trata-se de um romance que cuida da vida de sírio-libaneses no Brasil central.
 
O Principal personagem é Monsalim, em torno de quem gira a grande multidão de personagens secundários, todos até certo ponto submissos a sua pessoa. Monsalim nos é tratado como um indivíduo tirânico, rico, poderoso, extremamente devasso, líder(quase) inconteste da família e dos amigos, nos diversos episódios onde há uma pletora de fatores psicológicos , secretos, sexuais, com sentidos de todo tipo, diretos e indiretos, tortuosos, reflexivos e enviesados, que promovem a ambiguidade e a atmosfera heterogênea do conjunto. Porém boa parte da comparsaria adquire um relevo especial e o romance se faz um texto polifônico.
 
As vozes se multiplicam e consubstanciam uma tragédia que se anuncia praticamente desde o princípio: certa noite Monsalim é agredido e tem um punhal cravado no pescoço.  A partir daí, esse punhal vai ser o sofrimento que marca Monsalim, metáfora dos sofrimentos de todos. Entretanto , com a permanência forçada de chefe na cama (por 13 dias, segundo a cigana Tétis), é que os outros passam a se destacar. No começo, a esposa Nasta, bastante dedicada ao marido, os filhos e filhas, os amigos, e até os criados, uma cachorra e um violoncelo.  Mas não apenas: também  a vizinha família de Matias, Nina Rosa e seus filhos, todos pobres.
 
E o romance se desenvolve num clima de delicada profundidade psicológica, que fascina o leitor. Miguel Jorge faz intervir uma correspondência de oito cartas de mulheres diversas, quase todas  ex-amantes de Monsalim, nas quais se põe em destaque seu enorme apetite sexual. Vemos também que o domínio autoritário de Monsalim sobre os filhos provoca as rebeldias escusas dos filhos, expressas tanto no amor incestuoso dos irmãos Gamal e Radige, quanto na paixão de Mila pelo caminhoneiro Marçal. Por outro lado Nina Rosa, em sua pobreza extrema  sem poder contar com o marido sempre bêbado, sujeita-se a dar o corpo ao senhorio em pagamento do aluguel da casa em que vive. Minha Querida Beirute é uma das grandes obras-primas que se debruça sobre a cultura árabe no Brasil.    
 
 
* Fernando Py é crítico literário.