
O Riso Carnavalesco e Seu Processo de Desmonte
“ O riso carnavalesco é um riso profundamente universal...
Bakhtin,Mikhail” (1981)
Maneira inteligente de esboçar um flash da certa realidade que se quer desmontar, armando um quebra-cabeça-através de jogo de recursos da linguagem, cujo objetivo claro é esconder, demolindo, através do riso carnavalesco, com as farpas , de uma crítica por vezes velada, por vezes escancarada, os valores ambíguos e dissimulados da sociedade.
Entre paródias, sátiras, neste livro de Edival Lourenço: O Elefante do cego. (Goiânia: Editoras UCG/Kelps, 2009- Coleção Prosa e Verso) se desenrolam as crônicas reflexivas, ou melhor, os pequenos ensaios críticos que chamaríamos de ensaios de imprensa- misto de crônicas e avaliação crítica da realidade exposta- determinando uma cosmovisão aguerrida da realidade, temperada pelo talento do escritor Edival Menezes em provocar a visão pelo avesso, que escancara as fragilidades do fato exposto.
O resultado, para o leitor, não é só apreensão da temática, mas a percepção da mensagem que se divide entre o lúdico e o viés crítico, provocando um riso, ao mesmo tempo sarcástico e valorativo.
Um livro que, do primeiro ao último texto, representa expressiva “ menipéia” termo hoje em desuso, mas que acoberta um tipo de manifestação híbrida, carregando, nas suas tintas, o enfoque da realidade exposta, e o seu desmonte através da sátira, da paródia do ponto enfocado.Um livro que vai, do imediatismo da crônica, ao universalismo dos valores ali tratados.
O próprio título- O Elefante de cego- é uma grande metáfora da matéria exposta, ou seja, percorre uma gama de ocorrências da vida real, sempre temperadas à luz da ironia e do sarcasmo, recursos pelos quais o autor dilapida - na exposição de referências contrastantes, tomadas em sentido simbólico - como, aqui , a conotação do adjetivo “grande” para a imagem do elefante, e, também, o, substantivo “ cego” para indicar o ser com falta a de visão- dilapida, pois,a idéia da capacidade de mensurá-las, expondo, assim, a face caústica do fato referido, em conclusão crítica: não basta que o problema seja grande, é preciso enxergá-lo.
Sabendo com Mikhail Bakhtin, in Os problemas da poética de Dostoievski.( R.J. : Editora Forense- Universitária, I Edição Brasileira, 1981, ), que:
Chamamos carnavalização da literatura, ao enfoque de um espetáculo sem ribalta entre atores e espectadores- uma mésalliance que acopla valores diferentes, aproximando sagrado com profano, baixo com elevado, grande com insignificância, sábio com tolo etc. ( p. 106),
pensamos no sentido pragmático daquele ditado que reza: “ o riso tem mais força de destruição que uma tropa de choque.” Ou como lembra a ensaista e crítica Darcy Denófrio, ( in “A sutileza do riso,” Jornal Opção, 11 a 17 de abril de 2010), citando Henri Bergson: “O riso deve ter uma significação social”. Também, saliente-se a postura crítica do apresentador de Elefante do cego: Euler da França Belém, jornalista e ensaísta, editor do Jornal Opção, que soube captar o sentido cósmico do referido riso.
É o que literalmente e literariamente presenciamos com agudeza de recurso retórico e sensibilidade estilística, estética, nesta coletânea do escritor Edival Lourenço.
Visando comprovar nossas observações, vejamos alguns de seus enfoques parodísticos, carnavalescos. Por exemplo: sobre o nosso Hino Nacional, em que tenta, pelo ridículo de algumas cacofonias, expor o desusado e algumas vezes ultrapassado vocabulário, hoje em desuso, explora as combinações hilárias que dele decorrem., no trecho que leva o título “ Herói cubrado”. Desfaz-se, então, o sintagma oficial constante do hino “ heróico brado retumbante”, e salienta-se a cacofonia que resulta da sequência fônica maliciosa, em processo de desmonte: “herói cubrado”, ou herói fodido, a dubiedade de sentido, provocado pela cacofonia “ cubrado” que caminha para a demolição do sentido oficial do texto . Assim, de um estágio de sentido solene, parte-se para o sentido rebaixado, carnavalesco, num processo de desmitificação, temperado pelo aspecto cômico e crítico da realidade enfocada;
Ou apela para uma referência anatômica relativa a um Cara de projeção- a falta do dedo mindinho, por exemplo- ( in “ O dedo mindinho de Lula”) fazendo disto um símbolo do perigo ou da ameaça de uma ausência ou carência no desempenho de funções governamentais.
Na intenção cronística do enfoque de escândalos políticos, provoca a superposição de vultos de comando no país—( in “ Pesca de alto risco”) . Referindo-se ao delegado de projeção da Polícia Federal - Delegado Protógenes Queiroz, da Polícia militar afastado do cargo pelo “excessivo” e competente rigor profissional – lembra, satiricamente, a história de Ernesto Hemingway in O Velho e o mar, que evoca o episódio da pesca em que “ ao fisgar um peixe de porte descomunal, o pescador coloca em risco a sua própria vida e contra ele luta até o limite das suas próprias forças”. Sua referência acoberta a imagem do delegado que teria se atrevido a maquinações acima de seus próprios limites.
E estende o seu leque carnavalesco para o prefeito Celso Pita, “ uma espécie de cascudo tosco que chafurda o lodaçal dos pântanos, por onde são usurpadas quantias vultosas dos recursos públicos...”
Ainda, fala de Naji Nahas “ uma espécie de piranha do Nilo, com agilidade e faro de dentes afiados, para grandes bocadas”. Então, Edival faz desfilar personagens de perfil delituoso, que mancham e demolem a administração governamental.
O “ flash” cronístico e a reflexão ensaística, acoplando fato do cotidiano da nação, com as digressões parodístcas e carnavalescas da realidade mencionada, estendendo para o universal os valores em jogo, repete-se em todos os textos de Edival Lourenço, prenunciada pelos títulos provocadores, como : “ A invenção do padre voador” ;
“ AsParTame” ( em que o autor recolhe com agudeza crítica o peso das consoantes- oclusivas-bilabial e linguo-dental- indicativas do partido político oficial PT ); “ O globom cabrito não globerra”, ( em que expõe, através do jogo de aliteração, ou a reiteração da consoante “ G “, desde o título, a tendência da generalização presunçosa- um dos traços da época atual,- a globalização- e seu sentido restritivo do humanismo. Assim, a reiteração da a oclusiva “G”, no início das palavras, opera a visão satírica própria da logística do escárneo: (globatalha que globerra à guerra, que leva em seu globojo, o propósito de levar globem-estar, os globenefícios da riqueza global e termina parodiando a citação shakespeariana: “To globe or not to globe, that is the question.)”.
Este, o tom que marca a maioria dos pequenos ensaios críticos deste novo e saboroso livro de Edival, oferecendo, também, ainda que esporadicamente, narrativas picarescas como “ De repente literatura” em que ironiza expediente burocrático e casuístico da justiça, ou o desmonte de propagandas manipuladas que acobertam, sob o manto das leis, interesses mascarados, como em “ Liberdade de expressão etílica”.
Moema de Castro e Silva Olival


