AL-Chaer:  Para Uma Poética Anunciada - Sylvia H. Cyntrão*

Em 2003, Affonso Romano de Sant´Anna apresentou-me virtualmente ao poeta AL Chaer. Seis meses, e cerca de 200 e-mails depois, com uma média de 3 literárias mensagens diárias, o poeta foi meu convidado para uma apresentação no curso de Pós graduação sobre poesia contemporânea. Um sucesso absoluto. Simultaneamente, neste tempo, e depois, fizemos também alguns poemas a quatro mãos, entre réplicas e tréplicas e vimos que, evidentemente, havia um vínculo precioso entre nós, “com a poesia pelo meio” (segundo palavras de nosso Affonso). AL-Chaer poetizou minhas teorias – literalmente – e eu, bem, creio que abri ao poeta uma visão diferenciada e integradora de sua escritura, pelo aporte teórico-filosófico que fui aplicando às minhas leituras  e às análises de seus textos em minhas aulas na Universidade de Brasília.

A estrutura deste livro-Partitura fará o leitor perceber que esta é uma poética que se desdobra a partir de princípios ontológicos, no mundo da matéria transformada alquimicamente pelos procedimentos estéticos, que é a alquimia dos tempos pós-modernos! Difícil de entender? Só mergulhando mesmo, concordo, para atingir a plenitude desta poética, mas...podemos pensar em algumas pistas.

No processo de estruturação do livro vimos que seria interessante organizar a obra de forma não-linear e atemporal; uma forma que propiciasse uma ação reguladora, mas também integradora do fluxo dos sentidos presentes nos poemas. Os estados diferenciados de cada fluxo foram naturalmente se agrupando em conjuntos, nos quais o último poema de cada conjunto funcionava como elo/transição para o conjunto seguinte. E assim estabeleceu-se a seqüência hermética (sim, lembremos Hermes Trimegistro) que se inicia com o Sopro, passando pela Semeadura; pela Manifestação que encadeia a etapa da Transformação, a caminho da necessária Integração e, ao final, da natural Ressonância.

O contato do leitor com cada conjunto é que fará vibrar a "alma" temática dos poemas postos. Pense em um instrumento de cordas...cada conjunto seria uma das cordas. AL-Chaer propõe uma primeira harmonia, que é esta seqüência, de Sopros a...Ressonância, complementada pelo independente “Solo de Laura”. Mas o leitor poderá criar a sua própria leitura (des)harmônica, vibrando primeiro a corda do meio, ou a do fim e por aí vai...

Em termos herméticos, a harmonia intrínseca das notas da escala (comprovada pelos estudos de acústica) prova a harmonia intrínseca dos elementos da natureza. Desde Pitágoras (um "hermético") os modelos musicais ou matemáticos eram usados como um meio de comunicar estados cognitivos ou perceptivos não-verbais e difíceis de explicar por escrito. Foram criados a partir da necessidade de forçar a percepção humana a superar as barreiras da consciência e possibilitar o "mergulho orientado" nas áreas de sombra para além do racional.

E, já que falamos em pistas, aqui está, a quem interessar possa...e a quem interessar conferir: o último poema de cada “movimento” dessa “Partitura” propõe-se a ser o elo/transição para o seguinte. Ao final do “movimento” um poema promove a ressonância para o próximo elemento-chave do movimento seguinte. AL-Chaer segue um mesmo padrão até o momento em que as fronteiras ou contornos estão “contaminados” e o próximo elemento é ativado. O que sobe, desce, reposicionando-se e ressoando. Partitura lembra muito (propositalmente, é claro)  uma peça de jazz...

Atento a essa analogia musical, o leitor conhecerá um caminho em que o espaço-tempo sustenta-nos nos símbolos codificados pelo inconsciente. O diálogo que a partir daí acontece é com nossa própria condição humana que sente, ama, sofre, alegra-se, vive, morre e ressuscita em um movimento a um só tempo intenso, desdobrável, autônomo, silencioso, mas infinitamente loquaz: o movimento da tradução da imaginação do poeta nas imagens de seus textos. Epifanias irão acontecer.

O relevo do psiquismo proporciona, nesse instante súbito, a abertura de uma poética que, efetivamente, propõe a tonificação da vida. Bachelard fala da “fuga para o alto”, do ato poético como sublimação, instalada no espaço estético íntimo do livro. Nós, os leitores, somos, portanto, os investigadores dessa “estética do escondido” e assim  passamos a habitar junto a compreensão dos valores desse “outro”, no papel de  “cúmplices”.

Lendo alguns poemas – que tive o privilégio de conhecer ainda inéditos – com  os alunos, escrevi breve ensaio em que dizia aceitar o confinamento dessa intimidade comungada que me trazia um abrigo especial e precioso. Poemas que abracei pela via do duplo universo que fala e ouve; que pelas imagens se abre e se fecha, alternadamente, e que nos instala no interior do inominável. Assim como eu, o leitor sentirá – lembrando Saramago, que está face a face – com “essa coisa que em nós não tem nome, essa coisa que é o que também somos”. Esse não é, afinal, o verdadeiro encanto de um poema? A possibilidade infinita de mergulho “no que somos”?

Convido-os, então, a começar esse prazeroso e, porque não dizer...esse instigante caminho!

AL poeta Chaer, minha admiração: essa “palavra-tudo”. Ou melhor, essa “palavra tudo de-bom”, como talvez dissesse a linda Laura, sua filha - a dona do “Solo” final.

 
Sylvia Helena Cyntrão é docente e poeta. Possui graduação em Letras Português-Francês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978), mestrado em Literatura pela Universidade de Brasília (1988) e doutorado em Literatura também pela Universidade de Brasília (2000). Atualmente é professora associada da Universidade de Brasília. Foi editora da Revista Cerrados (UnB) de 2003 a 2006 , por sua experiência como diretora da Editora da Universidade Católica de Brasília da qual foi uma de suas fundadoras- Desenvolve seus trabalhos na linha de pesquisa: Literatura e outras áreas do conhecimento.Tem experiência de ensino na área de Letras, com ênfase em Literatura Comparada, atuando principalmente sobre os seguintes temas: literatura brasileira, poesia, teoria literária, canção popular e identidade nacional. Tem publicados diversos livros e ensaios teóricos sobre os temas. Coordena o Grupo de pesquisa Poéticas contemporâneas do PPg em literatura da UnB, o VIVOVERSO, cadastrado no diretório de pesquisa do CNPq. É agente cultural do GDF e em 2007 publicou o livro de poemas O QUARTO E O ATO , pela Editora Esquina da palavra, com apoio do Fundo de Apoio à Cultura do GDF (FAC). Organizadora do livro POESIA: O LUGAR DO CONTEMPORÂNEO, com as palestras do Simpósio de Crítica de Poesia da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília da qual foi coordenadora.O livro tem o Cd "Fale-me de amor" encartado com o grupo de pesquisa e performance Vivo Verso.