No  dia 3 de maio de 2010, teve lugar o lançamento do livro “Poder e paixão: a saga dos Caiado”, de minha autoria (Goiânia: Cânone Editorial, 2009). Foi uma bela festa, em que muito me sensibilizou o numeroso público presente, bem como as palavras generosas do professor Noé Freire Sandes, ao fazer a apresentação da obra; do Secretário Sérgio Caiado e do deputado Ronaldo Caiado, falando em nome da família; e do Governador Alcides Rodrigues, patrono daquela noite de autógrafos.

Muitas pessoas me perguntam por que escrevi sobre esse tema, no qual trabalhei por mais de uma década, resultando em dois alentados volumes que se estendem de 1770 (ano do registro de uma sesmaria concedida a Manoel Cayado de Souza) a 1960 (data da inauguração de Brasília, fixada pelo deputado federal Emival Caiado).

Respondendo, remeto às palavras de abertura do primeiro volume, que é dedicado “aos jovens estudantes e pesquisadores – historiadores do futuro – com votos de que não se esquivem de visitar as zonas de sombra da História e possam ir além do repetido e consagrado, honrando assim, o compromisso com a verdade da disciplina que escolheram”.

Outra não foi minha motivação: responder aos meus próprios questionamentos e dúvidas; refugir ao comodismo e à repetição de versões sediças; buscar o que se esconde nos relatos, nos fatos e nas entrelinhas dos documentos: iluminar, enfim, zonas de sombra da História de Goiás.

Claro está que não dou por atendido plenamente esse desafio. Correções e críticas ao livro são inevitáveis e serão bem-vindas; sobretudo, espero que historiadores mais talentosos e mais preparados retomem o que ora foi começado e o aperfeiçoem e completem. Lembremos as palavras de Benedetto Croce: “Toda história é história contemporânea”. O que nos leva a concluir que as novas gerações terão de reescrever a sua própria História de Goiás.

Se me pedirem para situar “Poder e paixão: a saga dos Caiado” na historiografia atual, não saberia fazê-lo. História social? História cultural? História das mentalidades? História da família? História das mulheres? Há um pouco de tudo, sendo que, eventualmente, talvez tenha adquirido contornos literários, ainda que não ficcionais.

Engolfou-me a riqueza dos acervos percorridos, sobretudo os de caráter privado, pessoal e familiar, “fontes de enfeitiçamento”, na expressão de Christophe Prochasson. É tal a força desses documentos, que houve momentos em que ganharam vida própria e ditaram à autora os caminhos a seguir.

A partir dessa constatação, faço veemente apelo no sentido de que, tanto o Poder Público como a sociedade, como um todo, se empenhem na preservação dos acervos históricos pertinentes à Velha República em Goiás, com destaque para aqueles pertencentes a antigas famílias goianas. Com efeito: um “Centro de Memória da Velha República” poderia ser criado na Cidade de Goiás, reunindo esse valioso conjunto de documentos, antes que desapareçam na voragem do tempo. Cenário ideal para abrigá-lo seria a casa da chácara do senador Antônio Ramos Caiado, figura histórica preeminente naquele contexto histórico.

A partir das entrevistas feitas e dos documentos pesquisados – também em arquivos públicos de Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília - tentei elaborar uma renovada história regional, deixando de lado o determinismo e o economicismo predominantes em parte da historiografia goiana.

Esmiuçando a micro-política, procurei enfocar a luta pelo poder, em várias instâncias e em momentos diversos. Assumidamente, perfilhei o “ressurgimento da narrativa”, com a valorização do interesse pelos eventos, na esteira da superação do modelo de explicação marxista. Estou ciente de que – como afirmava Paul Braudel – a história dos acontecimentos é a superfície da História; tenho-os, todavia, como espelhos que refletem as estruturas e, ao mesmo tempo, modificam-nas.

Com o trabalho que me propus realizar e que ora ofereço aos leitores, creio estar contribuindo para a História de Goiás, estado que adotei e onde nasceram meus filhos e alguns dos meus netos. A despeito de inegáveis progressos, creio que, tanto no plano estadual como no nacional, a História de Goiás ainda não foi suficientemente valorizada em toda a sua complexidade, originalidade e beleza. Espero que jovens historiadores e pesquisadores sobre ela se debrucem, com lucidez e paixão.