Neusa Santana usa uma técnica narrativa que se afina bem com a psique da protagonista Sônia. Técnica que evoca o impressionismo e o cubismo.

O começo sugere uma narrativa lógico-linear tradicional. Porém, aos poucos, a autora rompe com essa expectativa. Conforme a vida de Sônia sofre um processo de fragmentação, o mesmo se dá com o enredo. Aliás, o romance adota, ao final, um discurso poético, composto de trechos extraídos de um diário. Embora sem data e fora de qualquer sequência, essa história paralela ilumina o que ainda nao fora dito a respeito do tema da busca romântica. Nietzsche via, na dor, a fonte original da memória. E eis que a protagonista registra, sobretudo, as emoções dramáticas que lhe marcaram a trajetória.

Sônia é o centro do universo. É possível vê-la e senti-la. Já os demais personagens são todas pinceladas rápidas e impressionistas. O enredo abandona o desenrolar pormenorizado da vida dos demais, assim como eles abandonaram Sônia.

Da colagem cubista, emerge um retrato humano consistente. Poucos romances se afinarão tanto com a definição do gênero que lhe deu Milan Kundera, que o entedia como uma investigação do eu.

O leitor verá também que a protagonista encarna o sofrimento da mulher de uma época.

Nota-se ainda a forte influência da Igreja Católica nas cidades mais afastadas das grandes metrópoles.

Ressalte-se igualmente o lado ecológico da obra, o canto à natureza e a uma vida mais simples e natural.

 

Ricardo Alfaya, escritor do Rio de Janeiro - RJ.